domingo, 14 de abril de 2013

Quinze Contos Mais - Volume II


Talvez os leitores se lembrem que ali pelo mês de outubro/2012 fizemos uma postagem sobre a Coletânea Quinze Contos Mais. Naquela ocasião, dois editores da Encontro Literário - Raphael Reis e Ailton Augusto - tiveram trabalhos selecionados para participar da publicação.

Pois bem: agora a possibilidade de participação no Quinze Contos está aberta novamente e se você não mandou seu conto para nós da Encontro Literário ou tem outros escritos guardados, pode participar da Chamada 01-2013, que a Helena Frenzel já colocou no ar.

O prazo de envio dos trabalhos começa amanhã, 15/04, e vai até o fim do mês. Participe e boa sorte! Para mais informações, acesse: http://quinzecontosmais.blogspot.com.br/2013/02/chamada-01-2013.html

sábado, 13 de abril de 2013

Resenha de Filme: La educación prohibida


LA EDUCACIÓN prohibida. Realização integral: German Doin. [s.l.], 145 min., legendado. Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=-1Y9OqSJKCc. Acesso em: 21 mar. 2013.


Divulgado na internet a partir de agosto de 2012, o filme-documentário La educación prohibida apresenta algumas experiências que ousaram transgredir o modelo educativo tradicional, constituindo-se em um tentador convite à reflexão sobre a instituição escolar e as práticas educativas. Trata-se de um material particularmente indicado para professores que já atuam em sala de aula ou que ainda estão se formando e, também, para todos aqueles que desejam um futuro livre para seus filhos, sobrinhos, primos e conhecidos.
Aliás, um futuro sem embaraços parece ser a preocupação dos idealizadores da película, que a dedicam “às crianças e aos jovens que desejam crescer em liberdade”. A trama é composta por uma história fictícia de fundo, perpassada por recortes de entrevistas feitas com especialistas de países ibero-americanos. Nesta história de fundo, é apresentado um confronto entre docentes e alunos motivado pelo desejo destes últimos de ler um texto dito “ofensivo” numa comemoração que está por realizar-se na escola. Tal caracterização do texto se baseia nas suas fortes críticas à ausência de vínculos entre escola e vida. Para os alunos que o escreveram, a educação que prepara para a vida está proibida.
Partindo dessa situação, enfoca-se o status da instituição escolar. Embora a educação seja um tema importante, que mobiliza debates e investimentos os mais variados, existe uma uniformidade de práticas (apesar da multiplicidade de escolas existentes) que se orienta, quase que exclusivamente, para a formação de trabalhadores, relegando a formação do ser humano a segundo plano. Isso explicaria por que, nas palavras de Carlos Alberto Jiménez Vélez, neuro-pedagogo colombiano, as escolas e colégios latino-americanos não são mais que “espaços de tédio e aborrecimento”.
No entanto, a escola que conhecemos não existe “desde sempre” e o filme faz uma breve digressão histórica para explicar o surgimento do conceito de educação pública, gratuita e obrigatória no final do século XVIII na Prússia. Além disso, é explicitada a conveniência do modelo educativo atual para as sociedades industriais, que fizeram da escola um espaço de reprodução simbólica serializada; uma grande linha de produção. Diante deste quadro, o chileno Rafael González Heck destaca o mote do filme: “Toda educação que busque algo diferente tem que ser proibida”.
Feita esta introdução, o documentário dirige sua atenção para a diferença que se estabelece entre a escola (estes “espaços de tédio”) e a educação ou, melhor dito, o processo de aprendizado. Expõe-se o fato de que as crianças são predispostas a aprender, sendo desnecessária e até nociva a intervenção dos adultos através do processo educativo que nós conhecemos. Um dos entrevistados, o espanhol Juan Pere, explica que focalizar os objetivos educacionais (aprender a escrever o próprio nome, por exemplo) desvia nossa atenção e “deixamos de enxergar a criança para tentar adaptá-la aos objetivos impostos”.
O filme trata ainda de outros temas, como a tendência da escola a homogeneizar os alunos, desrespeitando o ritmo da criança. Para resumir, citamos a assertiva do pediatra espanhol Carlos González: “tudo o que a criança faz está inadequado, se espera que ela seja uma criança protótipo”.
Outro dos temas tratados que nos importa destacar é a questão da mudança de paradigma do professor. Para fomentar o pensamento sobre o papel do docente, colocam-se algumas perguntas cujas respostas são, obrigatoriamente, muito pessoais. Por exemplo: o que sinto quando estou educando?
Após um cortejo de situações que impõem a necessidade de refletir sobre o modelo educativo em voga, o filme termina com a leitura do texto sobre a educação proibida, aquela que não se escreve em nenhum caderno. Este texto, que veio sendo debatido na história de fundo, faz mais que defender a educação que ficou de fora das escolas, ele nos acusa: “Acreditamos que a educação está proibida não por culpa dos familiares, não por culpa das crianças, nem por culpa dos docentes. Todos proibimos a educação”.
A título de conclusão, podemos dizer que, se ainda não podemos prescindir da escola, o filme nos leva a desejar que possamos ao menos prescindir dos males da escolarização excessiva. É esse o compromisso que nos vemos em posição de assumir após assistir La educación prohibida.

Pós-escrito: Se faltam a este texto as "marcas autorais" que permitiriam irmaná-lo às demais colunas que escrevo para a Revista Encontro Literário é porque, originalmente, ele foi escrito como avaliação para uma das disciplinas que cursei na UFJF no último período. Aproveito o ensejo desta explicação para colocar o trailer oficial do filme acima resenhado:


domingo, 7 de abril de 2013

Releituras


Por Renata Delage
Os livros guardados nas prateleiras de Maria Lúcia Ribeiro, vez ou outra, tornam a repousar em sua cabeceira. Sobretudo os clássicos, que, segundo a doutora em teoria da literatura, suportam várias leituras. "A releitura é, na verdade, uma nova leitura. Você escolhe um livro para revisitar um personagem ou para ver se ainda gosta dele e, muitas vezes, descobre que parece que nunca o leu", diz. Para ela, o primeiro contato com as linhas do texto servem ao "reconhecimento do terreno", a um mapeamento da história. Mas as diversas possibilidades de sentidos, os detalhes que se escondem em cada página, só são apreendidos posteriormente. "Não que a primeira leitura não seja capaz de te levar a alguma compreensão. Mas os sentidos mais amplos de tal obra vão sendo construídos sobre os sentidos iniciais", avalia.
"Grande Sertão: Veredas", de João Guimarães Rosa, é um dos clássicos que está sendo revisto pela pesquisadora, assim como os escritos de Rubem Fonseca e Clarice Lispector. "Depois de alguns anos, estou amando lê-los mais uma vez", enfatiza Maria Lúcia, que diz dedicar boa parte de seu tempo à tarefa.
O hábito de reler livros e rever filmes - comum a muitas pessoas - despertou a curiosidade da professora Cristel Antonia Russell, da Amercian University, dos Estados Unidos. Com base na pesquisa publicada no "Journal of Consumer Research", que contou com entrevistas de pessoas de várias faixas etárias, a especialista identificou as razões para o que chamou de "reconsumo" de obras, bem como os benefícios da prática.
Segundo Cristel, o hábito pode estar vinculado à necessidade de encontrar camadas de significado mais profundas. O "reconsumo", mais que uma tentativa de reviver o passado, é uma busca que pode levar a grandes descobertas pessoais. O mercado se esforça para lançar histórias sempre frescas, mas, segundo constatou a PhD em marketing, deveria voltar seu olhar às velhas experiências, que são também aptas a abrir novas perspectivas.

A releitura de uma obra preferida permite o confronto entre as interpretações do material em distintas fases da vida. O estudo de Cristel cita como exemplo a história de um dos participantes, um pastor evangélico, que releu a Bíblia inúmeras vezes ao longo da vida. O pastor constatou que, de acordo com sua idade, interpretava as passagens de modo diferente, um sinal de amadurecimento.
Tal contraste entre o "eu atual" e o "eu do passado" é ocasionado pelos novos olhares que só vêm com a maturidade, segundo a professora do CES, mestre em psicologia, Ana Maria Mattos de Andrade. "Além da possibilidade de poder ter uma visão mais profunda sobre o tema e seus desdobramentos, as conexões que são feitas a partir de acontecimentos da atualidade estarão mais atuantes nessas novas interpretações", acrescenta.
O tempo foi fundamental para o trabalho do poeta e professor da Faculdade de Letras da UFJF, Alexandre Faria. Os versos escritos aos 17 anos só foram publicados 25 anos depois, em 2012, em "Lágrima palhaça", que tem selo da Aquela Editora. Os originais, esquecidos em um caderno com o desenho de um circo a lápis na capa, foram submetidos, segundo o autor, a um processo de "laminação". "Fui sobrepondo camadas de silêncio, e permanecem apenas alguns sons, ou imagens ou frases", constata.
Reler os textos - e lapidá-los tantos anos após sua criação - foi para o poeta um "reencontro". "Um reencontro com alguém que tinha sido e que - felizmente - não deixei de ser." A releitura despertou questionamentos sobre o envelhecimento e, em mesma proporção, sobre o rejuvenescimento, já que tantos traços pessoais permanecem, de certa forma, intactos. Já em relação à poesia, o autor revela ter se deparado com uma transformação brutal. "Eram versos longos, cheios de rimas", conta. "Foi um desafio rever o moleque de antigamente."
Em seu processo de criação, o poeta destaca a releitura constante, essencial ao fechamento do trabalho, mas não cultiva o hábito de rever sua obra após a publicação. "Acredito que depois de publicado meu trabalho alcança uma cristalização." O mesmo não acontece, conforme ele, com outras obras literárias, cujo processo de descobertas permanece em aberto. "Machado de Assis, por exemplo, é um dos autores que sempre releio", diz.
Outros motivos são apontados para explicar o recorrente hábito de revisitar obras literárias ou cinematográficas com frequência. Pesquisas apontam que indivíduos "consomem" o mesmo produto porque o cérebro já sabe a recompensa conquistada a partir desse contato, como a satisfação, o relaxamento e a alegria. "Muitas vezes as obras de arte se relacionam a momentos marcantes, são pontes que nos levam às sensações de determinada época da vida", ressalta a psicóloga Ana Maria. "A arte tem muito a ver com a contemplação, processo que pode levar tempo e ser repetitivo", acrescenta.
A repetição aparece como um método de estudo e memorização, que culmina em aprendizagem, outro caminho que nem sempre é consciente. "Nisso a criança é muito sábia", pontua Maria Lúcia Ribeiro. "Quando ela escuta o disquinho de músicas dela ou assiste a um DVD de um desenho animado, não dá muita bola da primeira vez. Mas ela repete, repete, repete e começa a se encantar com ele, logo o sabe de cor", exemplifica. "Se você conta uma história de determinada forma e, em uma segunda vez, muda alguma coisa, ela vai te dar uma bronca. Ela insiste porque, assim, aprende. Ora, conosco não poderia ser diferente", conclui Maria Lúcia.

domingo, 24 de março de 2013

Plano Municipal de Juventude (Juiz de Fora)


Ao convidar cada cidadão e cidadã para debater e propor diretrizes sobre a juventude em Juiz de Fora, damos mais um passo para consolidar uma forma coletiva de fazer política, em que a responsabilidade é de todos. Seja através de encontros presenciais ou virtuais, convidamos a comunidade para construirmos, juntos, o melhor Plano possível para a juventude em Juiz de Fora. Participe!

Para mais informações:

www.jucelio.com/juventude

quarta-feira, 20 de março de 2013

Dica de Leitura: A Tempestade, de William Shakespeare

A obra A Tempestade é apontada como uma das últimas de Shakespeare, tendo sido escrita em 1611 e ido aos palcos pela primeira vez nesse mesmo ano. A peça está dividida em três partes e reflete bem a sagacidade do dramaturgo ao apresentar desde então aquilo que configuraria o sistema colonialista europeu...
A história apresenta então um duque de Milão, chamado Próspero, possuidor de uma grande biblioteca e estudioso da magia. Após ser usurpado do ducado por seu irmão, Antônio, com a ajuda do rei de Nápoles, Alonso, Próspero e sua filha Miranda são lançados ao mar, indo parar numa ilha. Lá, vivem apenas uma bruxa, que foi morta pela magia de Próspero, e o filho da bruxa, um monstro chamado Calibã, que se torna escravo de Próspero e aprende sua língua. A partir disso, começam os enfrentamentos e paralelos entre o habitante da ilha e o europeu, o que todo sistema colonial viria trazer à tona, dando mais vigor ainda à peça shakespereana...
Um dos pontos marcantes da comédia se dá quando, após uma viagem à África para ceder sua filha a um rei, Alonso retorna à Nápoles com o seu filho, o príncipe Fernando, Antônio (o usurpador) e outras figuras da nobreza, acabam naufragando diante de uma tempestade provocada por Próspero. Sendo levados então até à ilha onde está Próspero, desenrola-se enfim toda vingança de Próspero... Em meio a esse confronto entre os nobres italianos, a obra traz também traz o romance entre o filho do rei de Nápoles com Miranda, filha de Próspero, além de ser um texto rico em simbolismo e arquétipos que Shakespeare tão bem desenvolveu ao longo de sua obra, ao refletir a essência da criatura humana. Ou seja, perpassando o drama e a comédia, A tempestade é uma das obras-primas do dramaturgo inglês e tem como tema fundamental e preferido de Shaskespeare o poder e tudo o que os homens são capazes de fazer para tê-lo a favor de seus interesses mais sórdidos...

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Seleção de Contos - Edital 05/2013



Edital 05 - 2013 (Conto)
A Revista Encontro Literário, inscrita no ISSN 2237-9401, tem como objetivo fomentar a produção literária, bem como estimular o prazer da leitura. Para isso, publicaremos dois editais: o do primeiro semestre será dedicado ao gênero Conto e o do segundo semestre ao gênero Poesia.

REGULAMENTO
Art. 1º – A Revista Encontro Literário, por meio deste edital, abre inscrições para publicação de Contos, com temática livre.
§ 1º – As inscrições são gratuitas.
§ 2º – Ao se inscreverem, todos os candidatos aceitarão automaticamente todas as cláusulas e condições estabelecidas no presente regulamento.
Art. 2º - Será considerada somente a participação de pessoas com idade de 15 anos adiante.
Das inscrições
Art. 3º – O edital é aberto a todos os interessados, desde que o texto seja escrito em língua portuguesa.
Art. 3º – As inscrições serão realizadas através do e-mail revistaencontroliterario@yahoo.com.br no período de 1 de março a 05 de abril de 2013.
Parágrafo único – Não serão aceitos textos discriminatórios, pornográficos ou que façam apologia às drogas.
Art. 4º – Cada participante pode se inscrever com 1 (uma) produção literária. Os contos devem ser inéditos, ou seja, que ainda não tenham sido publicados em livros, jornais ou outros meios.
§ 1º – Os contos devem ser enviados em arquivo Word (preferencialmente versão 2003), para o e-mail revistaencontroliterario@yahoo.com.br, com pseudônimo e título.
§ 2º - Em arquivo separado da obra, devem ser enviadas as seguintes informações: título da obra, pseudônimo, nome completo, endereço completo, telefone de contato e e-mail, bem como uma mini-biografia.
§ 4º - Os trabalhos devem ser digitados em editor de texto eletrônico Word (preferencialmente versão 2003), seguindo as seguintes configurações:
a) Fonte Arial ou Times Roman, tamanho 12;
b) Espaçamento entre linhas de 1,5 cm.
c) Cada conto não deve exceder o limite de 02 (duas) laudas.


Art. 5º – Serão selecionados 3 (três) contos, para publicação no site da Revista Encontro Literário, inscrito no endereço www.revistaencontroliterario.blogspot.com
§ 1º – Ao enviar as produções literárias, o participante tem a plena consciência de que autoriza a Revista Encontro Literário a publicar suas obras sem nenhuma espécie de ônus para a Revista.
Premiação
Art. 1º - Os autores que tiverem seus contos selecionados para publicação receberão como premiação:
a)    1 (um) exemplar da obra “Contos”, de Machado de Assis, e 1 (um) exemplar da obra “Contos que Machado de Assis e Jorge Luis Borges Elogiaram”, de Raphael de Oliveira Reis.
Da comissão julgadora
Art. 6º – A Comissão Julgadora é composta pelos editores e colaboradores da Revista.
Parágrafo único – A Comissão Julgadora terá autonomia no julgamento, isto é, a decisão da comissão é irrevogável.
Do resultado
Art. 7º – O resultado do Concurso será divulgado, em maio de 2013, no site www.revistaencontroliterario.blogspot.com. A publicação das obras selecionadas acontecerá no mesmo mês.
Das disposições finais
Art. 8º – Os casos omissos serão decididos pelos Editores da Revista.
Juiz de Fora, 28 de fevereiro de 2012.
Editores
Aílton Augusto
Paulo Tostes
Raphael Reis

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Borges: a leitura no limite e o olhar sugestionado

A coluna deste mês surge por influência da indicação de leitura feita aqui nesta mesma Revista. Tratarei de esboçar algumas linhas a respeito do modo como Borges leva a leitura, tal qual a conhecemos, ao limite. E pretendo ainda mostrar como, neste processo, o autor consegue sugestionar nosso olhar, fazendo com que nós, leitores, vejamos em certas imagens/situações a realização do seu universo literário tão particular. Nenhuma das ideias é nova ou pertence exclusivamente à minha pessoa. Neste sentido, chamo especial atenção para uma conferência (em espanhol) da Dra. Alicia Poderti, intitulada "Borges en su laberinto", que nossos leitores poderão encontrar em: http://bit.ly/YqeYir

A leitura no limite

Em mais de uma ocasião Borges outorgou papel proeminente à leitura. No que tange a declarações suas repetidas à exaustão, há duas que me interessa destacar: [1] o autor disse considerar que o Paraíso seria uma espécie de biblioteca e [2] ele aludiu que as páginas lidas por um escritor seriam mais louváveis que aquelas que esse mesmo escritor já produzira. 

Além disso, o tema da leitura reponta em mais de uma obra borgeana. Para o escritor, o ato de ler, assim como a literatura, seria um ato de re-escrita e até mesmo de criação, liberado, portanto, de seguir esquemas e de prender-se exclusivamente àquilo "que o autor quis dizer". O conto Pierre Menard, autor do Quixote (presente em Ficções, de 1944) é representativo dessa particular visão do fazer literário. 

Constituído por um “arremedo” de ensaio no qual se comentam as obras que teriam sido deixadas por Pierre Menard, o texto nos apresenta a mais audaciosa das empresas deste autor fictício: a re-escrita do Dom Quixote, de Miguel de Cervantes. Mas tal obra é composta com as mesmas palavras de Cervantes. A diferença está no significado que tais palavras tinham no século XVII quando a obra foi publicada pela primeira vez e o significado que elas possuíam no século XX. Para o ensaísta que escreve o conto, a intenção de Menard era louvável, pois este queria “continuar sendo Pierre Menard e chegar ao Quixote através das experiências de Pierre Menard”. (BORGES, 1972, p. 52). O destaque aqui não é para o autor, e sim para o leitor, aquela pessoa capaz de ampliar uma obra para além do limite de suas páginas, acrescentando significados às palavras a partir do seu momento histórico e, mais que isso, a partir de suas próprias experiências.


Se o primeiro exemplo que dei aponta para uma concepção "libertária" da leitura, os exemplos que se seguirão apontam para uma "premonição" borgeana: a leitura que ultrapassa os limites da materialidade e se avizinha do que hoje praticamos como sujeitos inseridos em uma "sociedade da informação". 

No conto O livro de areia, apresentado pela revista como dica de leitura, somos confrontados com um livro infinito, sem começo nem fim, de contornos deslizantes como a areia. Em consonância com o ponto de vista apresentado acima, podemos supor que todo livro pode ser um livro de areia, pois cada leitor (e aí voltamos ao tema da leitura) fará um percurso próprio que não se limita ao número de páginas, um percurso que ultrapassa a materialidade da obra que tem em mãos. 

Outros dois exemplos, mais contundentes: no conto A biblioteca de Babel, também presente no já mencionado Ficções, o universo é apresentado como uma biblioteca infinita: 

"O universo (que outros chamam a Biblioteca) constitui-se de um número indefinido, e quiçá infinito, de galerias hexagonais, com vastos poços de ventilação no centro, cercados por varandas baixíssimas. De qualquer hexágono, vêem-se os pisos inferiores e superiores: interminavelmente" (Borges, 1972, p. 84). 

Nesta biblioteca infinita, estão contidos todos os livros possíveis de serem escritos, sem que haja dois volumes idênticos e é impossível o conhecimento de todos eles no tempo curto da existência de um homem. 

Este conto se encerra com uma nota de rodapé que "simplifica" a questão e reduz a utilidade da vasta Biblioteca, antecipando a imagem trabalhada pelo autor no supracitado O livro de areia. Transcrevo: 

Letizia Álvarez de Toledo salientou que a vasta Biblioteca é inútil; a rigor, bastaria um só volume, de formato comum, impresso em corpo nove ou em corpo dez, composto de um número infinito de folhas infinitamente delgadas. (Cavalieri, em princípios do século XVII, disse que todo corpo sólido é justaposição de um número infinito de planos.) O manuseio desse vade mecum sedoso não seria cômodo: cada folha aparente se desdobraria em outras análogas; a inconcebível folha central não teria reverso. (Borges, 1972, p. 94) (grifo meu)

No que diz respeito à materialidade do objeto livro, nós sabemos que atualmente os textos já podem prescindir do suporte material e, habitando o espaço virtual, se deixam interceptar por links que nos direcionam sempre a novas e diferentes textualidades, como essas folhas aparentes que se desdobram em novas folhas sem reverso. Na rede, cada texto é sempre outro e sempre novo, sem começo e sem fim. Tenho a impressão de que relacionar a leitura dispersa da internet com o universo literário borgeano é um indício de como nosso olhar para o mundo foi sugestionado pela força da escrita do autor. Antes de passar para a próxima seção, deixo outra indicação de leitura, que irá esmiuçar melhor a relação de Borges com a internet e que fará isso com uma competência que me falta. Trata-se do artigo "A Biblioteca de Babel: uma metáfora para a sociedade da informação", de Johnny Virgil, disponível para leitura em: http://bit.ly/Xu6vdL

O olhar sugestionado

Em Borges y yo, texto presente no volume El hacedor, de 1960, e que é, diga-se de passagem, um falso convite à intimidade, o narrador aparente (o homem Borges, "divorciado" de sua persona de escritor) (?), assim se refere a um incômodo, causado pela convivência com sua outra parte:

Hace años yo traté de librarme de él y pasé de las mitologías del arrabal a los juegos con el tiempo y con lo infinito, pero esos juegos son de Borges ahora y tendré que idear otras cosas. Así mi vida es una fuga y todo lo pierdo y todo es del olvido, o del otro. (BORGES, 1997, p. 63) (grifo meu)
O que me chama a atenção nesta passagem é a alegação de que esses jogos pertencem a Borges agora. Ao transpor seus interesses "pessoais" para a literatura, colocando-os em letra de forma, o escritor estaria "roubando de si mesmo", ainda que no final do processo, pela própria repercussão de seus escritos, os jogos com o tempo e o infinito, assim como o gosto por mapas, relógios de areia e etimologias, estejam inevitavelmente associados ao seu nome. O texto já mencionado termina com uma frase que dá a justa medida da indissociação: "No sé cuál de los dos escribe esta página" (idem, p. 63).

Acredito que a força de atração que o nome de Borges exerce sobre determinados elementos de seu universo literário, fazendo com eles gravitem ao seu redor como os planetas em torno do sol, combinada com o caráter imagético de suas descrições (que pode ser comprovado por uma releitura do trecho aqui citado de A biblioteca de Babel) nos faz associar certas imagens e realidades ao seu universo literário tão particular. 

Aliás, o leitor mais atento deve ter percebido que este texto veio sendo acompanhado por algumas imagens que, à semelhança do texto borgeano, borram os limites entre o real e o fantástico. São montagens fotográficas feitas por Erik Johansson. É possível que alguns não concordem comigo, mas, desde o dia em que um amigo argentino compartilhou uma dessas imagens no Facebook e me marcou em sua publicação, não pude deixar de associar o universo visual desse artista alemão às criações de Borges, autor que, como proponho, colocou em sua literatura força suficiente para sugestionar (ou talvez subordinar) o nosso olhar, levando-nos a sempre enxergar algo de seu ao nos depararmos com imagens como estas ou com avanços tecnológicos como a internet.


Para quem tiver interesse de conhecer melhor a produção de Erik Johansson, sugiro visitar sua página pessoal: http://erikjohanssonphoto.com/. A divulgação da página responde ainda à indicação de autoria que é a condição colocada para o livre compartilhamento dessas imagens.


Obras de Borges citadas neste texto:

BORGES, Jorge Luis. Ficções. Tradução de Carlos Nejar. São Paulo: Abril Cultural, 1972

BORGES, Jorge Luis. El hacedor. Buenos Aires: Emecé, 1997


Pós-escrito: 

[1] Como qualquer outro texto publicado na Revista Encontro Literário, este também se presta a ser comentado, elogiado e criticado. Sobretudo criticado, porque não sei se fui suficientemente claro na segunda parte desta coluna, quando falo do "olhar sugestionado", que pode não passar de uma má expressão escolhida por mim para descrever o fenômeno a que faço referência.

[2] Para aqueles que sempre querem saber como o mágico tira o coelho da cartola (e tirar um pouco do encanto do espetáculo), deixo o link para um vídeo (em inglês) em que Erik Johansson explica seu processo de criação: http://youtu.be/mc0vhSseGk4