Embora
o conto "Bartleby, o Escrivão", não tenha tido muita repercussão na
época em que foi publicado, tornou-se um dos contos mais instigantes da
literatura universal. E para entender o alcance da narrativa, vale destacar o
contexto em que foi produzida. Considerado o precursor do absurdo na
literatura, Herman Melville aborda temas genuinamente marcados por um tom
existencialista, como se encontra, por exemplo, na obra de Kafka, especialmente
em O processo e Um artista da fome. O próprio Albert Camus cita Herman
explicitamente como uma grande influência em uma carta pessoal escrita a
Liselotte Dieckmann e publicada na French Review, em 1998.
A Revista Encontro Literário tem como objetivo a publicação de Contos e Poesias. Para isso, serão lançados dois números anualmente. Além disso, iremos diponibilizar informações referentes ao mundo acadêmico, cultura em geral e informações literárias. Nossa missão é fomentar a produção literária, compartilhar informações e incentivar o prazer da leitura.
quinta-feira, 26 de abril de 2012
Embora
o conto "Bartleby, o Escrivão", não tenha tido muita repercussão na
época em que foi publicado, tornou-se um dos contos mais instigantes da
literatura universal. E para entender o alcance da narrativa, vale destacar o
contexto em que foi produzida. Considerado o precursor do absurdo na
literatura, Herman Melville aborda temas genuinamente marcados por um tom
existencialista, como se encontra, por exemplo, na obra de Kafka, especialmente
em O processo e Um artista da fome. O próprio Albert Camus cita Herman
explicitamente como uma grande influência em uma carta pessoal escrita a
Liselotte Dieckmann e publicada na French Review, em 1998.quinta-feira, 22 de março de 2012
Franz Kafka e a metamorfose por vir
Marcado por conflitos com o pai, a pátria, com a língua e a literatura, enfim, Franz Kafka só encontraria a redenção após a sua morte, com a consagração de sua obra. Nesse contexto, vale destacar em que mundo nasceu, cresceu e escreveu o grande escritor tcheco. De início, a cidade de Praga, nas duas últimas décadas do séc. XIX, era uma cidade em “metamorfose”, numa alusão à sua obra mais conhecida e uma das mais lidas, dentre os clássicos da literatura universal. Na verdade, a antiga Tchecoslováquia só passou a existir em 1918, quando uma Constituição temporária criou o Estado Democrático, e Praga ainda era parte do Império Austro-Húngaro, sob a monarquia dos Habsburgos. A camada mais pobre da população era composta, principalmente, por industriais, banqueiros e altos funcionários da burocracia – universo que marcaria bastante as relações emblemáticas dos personagens de Kafka. Aliás, o seu pai era um pequeno industrial. A língua era o alemão, considerado a língua dominante, enquanto a grande massa de operários, pequenos assalariados e camponeses falava tcheco. O clima de tensão parte daí, pois foi um dos momentos mais críticos da história mundial em que a língua, mais do que dividir dois povos distintos, criava diferenças e discriminações dentro de um mesmo país. Não por menos, Kafka leva às últimas consequências esse clima hostil, marcando, inclusive a obra A Metamorfose, na qual Gregor Samsa desperta de um sonho perturbador para retratar toda a ambiência psíquica e moral de seus familiares, que bem podem representar aqui todo aquele clima de tensão por que passava o esfacelado país de Franz Kafka. A Metamorfose, portanto, pode ser vista como a autoimolação de um jovem filho e de seu sacrifício em prol da família, ou melhor dizendo, de uma causa que vai além disso – é o caminho angustiante de um personagem num mundo por demasiado excludente e alienante para alcançar a dimensão do grande escritor Franz Kafka...
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
Omar Khayyam e algumas de suas influências literárias no Ocidente
Para os incansáveis leitores de poesia que não se contentam apenas com o já conhecido no Ocidente, uma ótima sugestão de leitura é a obra do poeta persa Hakim Omar Khayyam (1048-1123), cujo reflexo se faz presente na produção de um dos maiores poetas portugueses de todos os tempos: Fernando Pessoa. Com a variedade de autores com os quais dialoga, em Pessoa é possível encontrarmos os ecos dos Ruba'iyat, de Khayyam. Perpassando a cultura do Islã e uma forma de estoicismo, a criação poética de Khayyam revela o mundo interno e externo de um poeta que tem, na metáfora do vinho, a motivação estética que funciona como a possibilidade de fuga do real não compreendido. Em Pessoa, por sua vez, o Poema Ruba'iyat é o letimov para esquecer a realidade e para servir como tentativa de troca por um tempo que jamais existirá. Então, nada mais oportuno do que o vinho como superação dos amores incertos: "[...] Se tive amores? Já não sei se os tive/Quem ontem fui já hoje em mim não vive/Bebe, que tudo é líquido e embriaga/E a vida morre enquanto o ser revive [...]" (Pessoa) e: "[...] Troca por vinho o amor que não terás/O que 'speras, perene, perene o 'sperarás/O que bebes, tu bebes. Olha as rosas/Morto, que rosas é que cheirarás?" (Khayyam). Podemos perceber, assim, que a vertente oriental do poeta português, após seu contato com a poesia de Omar Khayyam, adquiriu uma dimensão que não se limita apenas às correntes de pensamento do Oriente, como o Budismo ou o Hinduísmo, mas aponta a mundividência do poeta e astrônomo persa, bastante presente na criação pessoana, como o leitor pode conferir, por exemplo, em Ricardo Reis e Bernardo Soares. Não é por menos que a poesia de Khayyam conquistou Pessoa, pois, no poeta persa, estão o olhar sobre o mistério do universo e o esforço incessante de compreender o desconhecido, bem como, ao mesmo tempo, a impotência de quem está diante do irremediável. Enquanto, muitas vezes, os sistemas dos filósofos são apenas miragens no deserto, a vida vai mais além, inútil é tentarmos entendê-la. Por isso mesmo, Khayyam propõe que vivamos satisfeitos e mais despreocupados com o ininteligível da vida e da morte. Quanto ao amor, cumpre não confiarmos em demasia em sua divinização, muito menos exaltarmos a mulher, afinal, o amor é apenas um delírio fugaz e o beijo é bem o seu reflexo: por mais ardente e delicioso que seja, acaba. Portanto, ninguém melhor que Omar Khayyam viu a precariedade do destino humano, e a lição que daí resulta é o imediatismo e a necessidade imperiosa de se viver o momento presente. O passado não volta mais, o futuro é incerto, podendo vir acompanhado de tristezas e decepções. Cumpre, pois, aproveitar intensamente o momento atual, que passa rápido como o esplendor transitório de uma rosa. É necessário colhê-lo e aspirá-lo antes que murche. Fica, então, uma das possíveis sugestões de leitura da poesía de Khayyam: para não perdermos a coragem de viver, é necessário embriagarmo-nos com o momento presente, único e mais verdadeiro. Nesse sentido, a exaltação da embriaguez nos dará ao menos a ilusão de uma eternidade...sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
Uma breve reflexão sobre a proposta literária de Anton Tchekhov
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
Breves reflexões sobre Literatura e Sociedade
Uma teoria literária, qualquer que seja sua perspectiva crítica, não se resume apenas a um apanhado de conceitos, pelo contrário, sua crítica se processa em consonância com a influência exercida por determinado contexto histórico e cultural. É nesse sentido que a leitura de um pensador sempre deve ser analisada em diálogo com a época e formação de quem a expõe. Por isso, é possível observarmos que às vezes temos a impressão de estar diante de uma verdadeira "dança" teórica, ou seja, temos uma impressão que parece ser em dado momento a mais pertinente para compreender uma obra, sendo que em outro momento, ou até simultaneamente, surgem leituras que parecem contrapor-se entre si. Isto se deve ao fato de que, embora um texto literário seja produzido em relação a um contexto, os discursos sobre determinado texto, vale lembrar, não são estanques entre si e podem ser retomados e reformulados ao longo de uma mesma época, identificando-se, assim, a própria complexidade em que se apresenta a leitura da obra de arte em geral. Além disso, toda a perspectiva crítica (ao menos a boa crítica) deve estar investida, na essência, de um teor opositivo e até mesmo de um caráter "subversivo", considerando-se o seu papel diante do excesso de banalidades que muitas vezes são cometidas em relação à literatura. Portanto, toda relação entre literatura e sociedade, como também entre literatura e crítica, deve levar ao debate produtivo e alertar para o fato de que, em cada época, a ciência da literatura (teoria) pode constituir um dos parâmetros conceituais para as demais disciplinas das ciências humanas. Se hoje a ciência da literatura se expandiu para outras áreas do saber, é porque a sua força reflexiva consiste em um poder transformador de nunca estar fora de moda e nem ser ultrapassada. Afinal, os conceitos desenvolvidos na leitura de um texto e da sociedade que o produziu se inscrevem tanto numa ordem histórica quanto na sua superação. Nesse sentido é que, em meio a diversas perspectivas teóricas, a boa literatura em si será sempre um demônio que nunca deve parar de perturbar as verdades estabelecidas, bem como o conforto das ideias acomodadas num lugar tantas vezes para lá do senso comum...