quinta-feira, 28 de abril de 2011

O Perigo de uma única História... acrescento a importância vital da leitura




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O Perigo de uma única História.




Roger Chartier: "Os livros resistirão às tecnologias digitais"


O francês Roger Chartier - é um dos mais reconhecidos historiadores da atualidade. Professor e pesquisador da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais e professor do Collège de France, ambos em Paris, também leciona na Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, e viaja o mundo proferindo palestras.

Sua especialidade é a leitura, com ênfase nas práticas culturais da humanidade. Mas ele não se debruça apenas sobre o passado. Interessa-se também pelos efeitos da revolução digital. “Estamos vivendo a primeira transformação da técnica de produção e reprodução de textos e essa mudança na forma e no suporte influencia o próprio hábito de ler”, diz.

Diferentemente dos que prevêem o fim da leitura e dos livros por causa dos computadores, Chartier - acha que a internet pode ser uma poderosa aliada para manter a cultura escrita. Além de auxiliar no aprendizado, a tecnologia faz circular os textos de forma intensa, aberta e universal e, acredito, vai criar um novo tipo de obra literária ou histórica. Dispomos hoje de três formas de produção, transcrição e transmissão de texto: a mão, impressa e eletrônica – e elas coexistem.”

No fim de junho, Chartier - esteve no Brasil para lançar seu livro Inscrever & Apagar, em que discute a preservação da memória e a efemeridade dos textos escritos. Nesta entrevista, ele conta como a leitura se popularizou no século 19, mas destaca que bem antes disso já existiam textos circulando pelos lugares mais remotos da Europa na forma de literatura de cordel e de bibliotecas ambulantes. Confira os principais trechos da conversa.



Como era, no passado, o contato das crianças e dos jovens com a leitura?Roger Chartier A literatura se restringia às peças teatrais. As representações públicas em Londres, como podemos ver nas últimas cenas do filme Shakespeare Apaixonado, e nas arenas da Espanha são exemplos disso. Já nos séculos 19 e 20, as crianças e os jovens conheciam a literatura por meio de exercícios escolares: leitura de trechos de obras, recitações, cópias e produções que imitavam o estilo de autores antigos, como as famosas cartas da escritora Madame de Sévigné (1626-1696) e as fábulas de La Fontaine (1621-1695).

Quando a leitura se tornou popular?Chartier No século 19, surgiu um novo contingente de leitores: crianças, mulheres e trabalhadores. Para esses novos públicos, os editores lançaram livros escolares, revistas e jornais. Porém, desde o século 16, existiam livros populares na Europa: a literatura de cordel na Espanha e em Portugal, os chapbooks (pequenos livros comercializados por vendedores ambulantes) na Inglaterra e a Biblioteca Azul (acervo que circulava em regiões remotas) na França. Por outro lado, certos leitores mais alfabetizados que os demais se apropriaram dos textos lidos pelas elites.O livro O Queijo e os Vermes, do italiano Carlo Guinzburg, publicado em 1980, relata as leituras de um moleiro do século 16.

As práticas atuais de leitura têm relação com as práticas do passado?
Chartier É claro. Na Renascença, por exemplo, a leitura e a escrita eram acessíveis a poucas pessoas, que utilizavam uma técnica conhecida como loci comunes, ou lugares-comuns, ou seja, exemplos a serem seguidos e imitados. O leitor assinalava nos textos trechos para copiar, fazia marcações nas margens dos livros e anotações num caderno para usar essas citações nas próprias produções. No século 16, editores publicaram compilações de lugares-comuns para facilitar a tarefa dos leitores, como fez o filósofo Erasmo de Roterdã (1466-1536).

Em que medida compreender essas e outras práticas sociais de leitura pode transformar a relação com os textos escritos?Chartier Os estudos da história da leitura costumam esquecer dois importantes elementos: o suporte material dos textos e as variadas formas de ler. Eles são decisivos para a construção de sentido e interpretação da leitura em qualquer época. Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes (1547-1616), era lido em silêncio, como hoje, mas também em voz alta, capítulo por capítulo, para platéias de ouvintes. Todas as pesquisas nessa área formam um patrimônio comum com o qual os professores podem construir estratégias pedagógicas, considerando as práticas de leitura.

Que papel a literatura ocupa na Educação atual?Chartier A escola se afastou da literatura, principalmente no Brasil, porque está preocupada em oferecer ao maior número possível de crianças as habilidades básicas de leitura e escrita. Mas acredito que os professores devem acolher a literatura novamente, da alfabetização aos cursos de nível superior, como mostram várias experiências pedagógicas. Na França, por exemplo, um filme recém-lançado exibe uma peça do dramaturgo Pierre de Marivaux (1688-1763) encenada por jovens moradores de bairros pobres.

Muitos dizem que desenvolver o gosto dos jovens pela leitura é um desafio.
Chartier Certamente. Mas é papel da escola incentivar a relação dos alunos com um patrimônio cultural cujos textos servem de base para pensar a relação consigo mesmo, com os outros e o mundo. É preciso tirar proveito das novas possibilidades do mundo eletrônico e ao mesmo tempo entender a lógica de outro tipo de produção escrita que traz ao leitor instrumentos para pensar e viver melhor.

O senhor quer dizer que a internet pode ajudar os jovens a conhecer a riqueza do mundo literário?
Chartier Sim. O essencial da leitura hoje passa pela tela do computador. Mas muita gente diz que o livro acabou, que ninguém mais lê, que o texto está ameaçado. Eu não concordo. O que há nas telas dos computadores? Texto – e também imagens e jogos. A questão é que a leitura atualmente se dá de forma, fragmentada, num mundo em que cada texto é pensado como uma unidade separada de informação. Essa forma de leitura se reflete na relação com as obras, já que o livro impresso dá ao leitor a percepção de totalidade, coerência e identidade – o que não ocorre na tela. É muito difícil manter um contato profundo com um romance de Machado de Assis no computador.

Essa fragmentação dos conteúdos na internet não afeta negativamente a formação de novos leitores?Chartier Provavelmente sim. Na internet, não há nada que obrigue o leitor a ler uma obra inteira e a compreender em sua totalidade. Mas cabe às escolas, bibliotecas e meios de comunicação mostrar que há outras formas de leitura que não estão na tela dos computadores. O professor deve ensinar que um romance é uma obra que se lê lentamente, de forma reflexiva. E que isso é muito diferente de pular de uma informação a outra, como fazemos ao ler notícias ou um site. Por tudo isso, não tenho dúvida de que a cultura impressa continuará existindo.

As novas tecnologias não comprometem o entendimento e o sentido completo de uma obra literária?Chartier Sim e não. A pergunta que devemos nos fazer é: o que é um texto? O que é um livro? A tecnologia reforça a possibilidade de acesso ao texto literário, mas também faz com que seja difícil apreender sua totalidade, seu sentido completo. É a mesma superfície (uma tela) que exibe todos os tipos de texto no mundo eletrônico. É função da escola e dos meios de comunicação manter o conceito do que é uma criação intelectual e valorizar os dois modos de leitura, o digital e o papel. É essencial fazer essa ponte nos dias de hoje.

O novo suporte tecnológico pode auxiliar a leitura, mas não necessariamente o desempenho escolar.Chartier Pesquisas realizadas em vários países mostram que o uso do computador na Educação, quando acompanhado de métodos pedagógicos, melhora, sim, o aprendizado, acelera a alfabetização e permite o domínio das regras da língua, como a ortografia e a sintaxe. É preciso desenvolver políticas públicas que tenham por objetivo a correta utilização da tecnologia na sala de aula.

O senhor acha que o e-paper (dispositivo eletrônico flexível como uma folha de papel) é o futuro do livro?Chartier Os textos eletrônicos são abertos, maleáveis, gratuitos e esses aspectos são contrários aos da publicação tradicional de um texto (que pressupõe a criação de um objeto de negócio). Para ser publicado, um texto deve ser estável. Na internet, os textos eletrônicos continuaram protegidos, ou seja, não podem ser alterados, e têm de ser comprados e descarregados no computador do usuário integralmente. Para mim, a discussão sobre o futuro dos livros passa pela oposição entre comunicação eletrônica e publicação eletrônica, entre maleabilidade e gratuidade.

Ao longo da história da humanidade, acompanhamos a passagem da leitura oral para a silenciosa, a expansão dos livros e dos jornais e a transmissão eletrônica de textos. Qual foi a mais radical?Chartier Sem dúvida, a transmissão eletrônica. E por uma razão bastante simples: nunca houve uma transformação tão radical na técnica de produção e reprodução de textos e no suporte deles. O livro já existia antes de Guttenberg criar os tipos móveis, mas as práticas de leitura começaram lentamente a se modificar com a possibilidade de imprimir os volumes em larga escala. Hoje temos no mundo digital um novo suporte, a tela do computador, e uma nova prática de leitura, muito mais rápida e fragmentada. Ela abre um mundo de possibilidades, mas também muitos desafios para quem gosta de ler e sobretudo para os professores, que precisam desenvolver em seus alunos o prazer da leitura.

É muito fácil publicar informações falsas na Internet. Como evitar isso?
Chartier A leitura do texto eletrônico priva o leitor dos critérios de julgamento que existem no mundo impresso. Uma informação histórica publicada num livro de uma editora respeitada tem mais chance de estar correta do que uma que saiu numa revista ou num site. É claro que há erros nos livros e ótimos artigos em revistas e sites. Mas há um sistema de referências que hierarquiza as possibilidades de acerto no mundo impresso e que não existe no mundo digital. Isso permite que haja tantos plágios e informações falsas. Precisamos fornecer instrumentos críticos para controlar e corrigir informações na internet, evitando que a máquina seja um veículo de falsificação.

Fonte: Disponível em [http://revistaescola.abril.com.br/lingua-portuguesa/fundamentos/roger-chartier-livros-resistirao-tecnologias-digitais-610077.shtml]. Acesso: 28/04/11.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Dia Nacional do Livro Infantil

O criador da boneca Emília, personagem mais célebre do 'Sítio do Picapau Amarelo' símbolo da literatura infantojuvenil, Monteiro Lobato (1882-1948), empresta à data de seu aniversário, 18 de abril, para a comemoração do Dia Nacional do Livro Infantil.
O dia foi escolhido pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, em 2002, e instituído pela Unesco (United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization) do Brasil.
O site de pesquisa Google fez nesta segunda-feira (16) uma homenagem pelos 129 anos de nascimento do escritor brasileiro Monteiro Lobato. Com uma ilustração dos personagens da boneca Emília e do Visconde de Sabugosa de "O Sítio do Pica-Pau Amarelo", o Google criou um logotipo especial para comemorar o aniversário do escritor brasileiro. Monteiro Lobato também aparece entre os assuntos mais comentados do Brasil no Twitter nesta segunda-feira.
Um dos escritores de literatura infantil mais influentes do século XX, Lobato nasceu na cidade de Taubaté, interior de São Paulo, em 1882 e faleceu em 1948, ano em que completou 66 anos. Entre suas obras mais importantes estão "Reinações de Narizinho", "Caçadas de Pedrinho" e "O Pica-Pau Amarelo".
Entre 1921 e 1947, ele publicou 23 livros que compõem a coleção "O Sítio do Pica-Pau Amarelo". As obras foram transformadas em diversas séries de televisão de grande sucesso.



Ainda, ressalto aos interessados que existem adapatções dos livros considerados clássicos, para o mundo infanto-juvenil. Recomendo a leitura do livro "Como e por que ler os clássicos universais desde cedo, da escritora Ana Maria Machado, a qual nos conduz por uma fascinante viagem - um passeio pelos grandes textos da literatura universal. Um mergulho no que de melhor já se produziu em literatura infanto-juvenil. Acompanhá-la ao longo dessas páginas é constatar que ler pode transformar-se numa grande aventura. Numa linguagem saborosa, a autora nos conta um pouco de sua própria história de leitora. Suas primeiras paixões literárias, seus personagens inesquecíveis, as histórias que sempre volta a ler. Enquanto traça a cartografia emocionada de suas paixões literárias, Ana Maria Machado nos contagia e nos desperta a vontade de também conhecer esses personagens incríveis.


Atualmente, a editora Escala Educacional está realizando uma série de adaptações da literatura clássica para o universo infanto-juvenil como, por exemplo, com os escritores consagrados Tchekhov e Miguel de Cervantes. Vale apena conferir! (http://www.escalaeducacional.com.br/)


sexta-feira, 15 de abril de 2011

Por que ler os Clássicos? Por Italo Cavino

Por que ler os Clássicos? O escritor italiano Italo Calvino (1923-1985), em seu livro Por que ler os clássicos [São Paulo: Companhia das Letras, 1993, 9-16], propõe algumas definições muito interessantes de clássico:

"1. Os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: 'Estou relendo...' e nunca 'Estou lendo...'.

2. Dizem-se clássicos aqueles livros que constituem uma riqueza para quem os tenha lido e amado; mas constituem uma riqueza não menor para quem se reserva a sorte de lê-los pela primeira vez nas melhores condições para apreciá-los.

3. Os clássicos são livros que exercem uma influência particular quando se impõem como inesquecíveis e também quando se ocultam nas dobras da memória, mimetizando-se como inconsciente coletivo ou individual.

4. Toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira.

5. Toda primeira leitura de um clássico é na realidade uma releitura.

6. Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer.

7. Os clássicos são aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo as leituras que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram (ou mais simplesmente na linguagem ou nos costumes).

8. Um clássico é uma obra que provoca incessantemente uma nuvem de discursos críticos sobre si, mas continuamente as repele para longe.

9. Os clássicos são livros que, quanto mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidos de fato mais se revelam novos, inesperados, inéditos.

10. Chama-se de clássico um livro que se configura como equivalente do universo, à semelhança dos antigos talismãs.

11. O 'seu' clássico é aquele que não pode ser-lhe indiferente e que serve para definir a você próprio em relação e talvez em contraste com ele.

12. Um clássico é um livro que vem antes de outros clássicos; mas quem leu antes os outros e depois lê aquele, reconhece logo o seu lugar na genealogia.

13. É clássico aquilo que tende a relegar as atualidades à posição de barulho de fundo, mas ao mesmo tempo não pode prescindir desse barulho de fundo.

14. É clássico aquilo que persiste como rumor mesmo onde predomina a atualidade mais incompatível."

Por fim, acrescenta:

"[...] que não se pense que os clássicos devem ser lidos porque 'servem' para qualquer coisa. A única razão que se pode apresentar é que ler os clássicos é melhor do que não ler os clássicos."

Nasceu em Santiago de Las Vegas, Cuba, em 1923, tendo ido logo a seguir para a Itália. Participou da resistência ao fascismo durante a guerra e foi membro do Partido Comunista até 1956. Em 1946 instalou-se em Turim, onde doutorou-se com uma tese sobre Joseph Conrad. Publicou sua primeira obra, Il sentiero dei nidi di ragno, em 1947. Com O visconde partido ao meio, lançado em 1952, o autor abandonou o neo-realismo dos primeiros livros e começou a explorar a fábula e o fantástico, elementos que marcariam profundamente a sua obra. Nos anos 60 e 70 aprofundou suas experiências formais em livros como As cidades invisíveis e Se um viajante numa noite de inverno. Considerado um dos maiores escritores europeus deste século, morreu em 1985. Entre os livros publicados mais recentemente, estão 'Os nossos antepassados' (1997),'Se um viajante numa noite de inverno' (1999), e as obras póstumas 'Sob o sol jaguar' (1995) e Seis propostas para o próximo milênio (1990).


segunda-feira, 11 de abril de 2011

Primícias sobre Poemas

O poema é uma das mais antigas formas de expressões literárias. Objetiva a transmissão de ideias e sensações através das emoções relacionadas à sensibilidade e imaginação do poeta. A expressão do poema é marcada pela capacidade de combinação das palavras que formam imagens e ou figuras de linguagem dentro da frase e/ou estrofe e seu sentido e sonoridade definem a formação de versos ou rimas. Os versos podem ser metrificados ou livres, dependendo do estilo e do ritmo que o poeta pretende construir e a forma da rima. A rima é construída a partir da sonoridade da palavra na correspondência de sons finais e ou da aliteração na qual ocorre a repetição de determinadas sílabas. Além da melodia, a própria formatação do poema pode sugerir uma imagem e aguçar os sentidos. T.S. Eliot ensina que aprende-se o que é poesia lendo poesia.

Nasceu na Antiguidade caracterizado como “texto em versos rimados e metrificados”. Platão aloca o poema como arte representativa, Mimese, ao lado do teatro e da dança. Assim, trata-se de uma forma de representação do mundo em três tipos: o Lírico, o Épico e o Dramático. Em seus primórdios, estava associada ao misticismo e a religião, tal como nos povos da América pré-colonial; posteriormente a disseminação da forma escrita popularizou-se e secularizou-se revelando caminhos outros como as “charivaris” e a “literatura de cordel”. Sobre o Sistema de Versificação pode-se dizer que foram criados segundos contextos diferentes, o que resulta tipos diferentes. Estas diferenças devem-se às culturas e às línguas. Os versos da poesia de língua portuguesa, sejam eles expostos em formas métricas ou livres, rimados ou brancos e seus ajustes, constituem exemplos. Outros exemplos são:

Os hebreus com versos livres.

Os antigos gregos com versos quantitativos. Esses versos eram baseados na quantidade, isto é, na duração das sílabas.

Os anglo-saxões com estrofes de quatro versos, cujo ritmo se baseava em aliterações.

Os poetas medievais franceses com as sílabas de base rítmica de seus versos e utilização de assonâncias (rimas em que coincidem apenas as vogais, a partir da última vogal tônica, apoiadas em consoantes diferentes, como na rima entre todo e morto).

Os hindus, os japoneses e os persas com variações de sistemas de versificação. Uma famosa forma poética japonesa, o haicai ou haiku, compõe-se de apenas 17 sílabas, distribuídas em três linhas.

Define-se pelo menos três tradições da Poesia:

A Tradição Clássica: a epopeia, a ode, a elegia, o idílio e o epigrama. Preocupação com a Forma.

A Tradição Romântica: trovas, canções de amor e o soneto. Preocupação com o espírito romântico.

A Tradição Realista: cotidiano, objetividade e realismo psicológico.

sábado, 9 de abril de 2011

PARA QUE SERVE A ARTE?, por Ferreira Goullar

Para que serve a arte?
Confesso que, espontaneamente, nunca me coloquei esta questão: para que serve a arte? Desde menino, quando vi as primeiras estampas coloridas no colégio (que estavam muito longe de serem obras de arte) deixei-me encantar por elas a ponto de querer copiá-las ou fazer alguma coisa parecida.
Não foi diferente minha reação quando li o primeiro conto, o primeiro poema, e vi a primeira peça teatral. Não se tratava de nenhum Shakespeare, de nenhum Sófocles, mas fiquei encantado com aquilo. Posso deduzir daí que a arte me pareceu tacitamente necessária. Por que iria eu indagar para que serviria ela, se desde o primeiro momento me tocou, me deu prazer?
Mas se, pelo contrário, ao ver um quadro ou ao ler um poema, eles me deixassem indiferente, seria natural que perguntasse para que serviam, por que razão os haviam feito.
Então, se o que estou dizendo tem lógica, devo admitir que quem faz esse tipo de pergunta o faz por não ser tocado pela obra de arte. E, se é este o caso, cabe perguntar se a razão dessa incomunicabilidade se deve à pessoa ou à obra. Por exemplo, se você entra numa sala de exposições e o que vê são alguns fragmentos de carvão colocados no chão formando círculos, ou um pedaço de papelão de dois metros de altura amarrotado tendo ao lado uma garrafa vazia, pode você manter-se indiferente àquilo e se perguntar o que levou alguém a fazê-lo. E talvez conclua que aquilo não é arte ou, se é arte, não tem razão de ser, ao menos para você.
Na verdade, a arte - em si - não serve para nada. Claro, a arte dos vitrais servia para acentuar a atmosfera mística das igrejas e os afrescos as decoravam como também aos palácios. Mas não residia nesta função a razão fundamental dessas obras e, sim, na sua capacidade de deslumbrar e comover as pessoas.
Portanto, se me perguntam para que serve a arte, respondo: para tornar o mundo mais belo, mais comovente e mais humano.

Sobre o autor: um dos maiores poetas brasileiros, nascido no Maranhão (1930), é também cronista, ensaísta, teatrólogo e crítico de arte. É autor de livros de poesia como “Dentro da Noite Veloz”, “Poema Sujo” e “Na Vertigem do Dia”, e de ensaios como “Vanguarda e Subdesenvolvimento” e “Argumentação Contra a Morte da Arte”.
Artigo escrito para a edição 3 da revista Onda Jovem (novembro de 2005)