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domingo, 24 de fevereiro de 2013

Borges: a leitura no limite e o olhar sugestionado

A coluna deste mês surge por influência da indicação de leitura feita aqui nesta mesma Revista. Tratarei de esboçar algumas linhas a respeito do modo como Borges leva a leitura, tal qual a conhecemos, ao limite. E pretendo ainda mostrar como, neste processo, o autor consegue sugestionar nosso olhar, fazendo com que nós, leitores, vejamos em certas imagens/situações a realização do seu universo literário tão particular. Nenhuma das ideias é nova ou pertence exclusivamente à minha pessoa. Neste sentido, chamo especial atenção para uma conferência (em espanhol) da Dra. Alicia Poderti, intitulada "Borges en su laberinto", que nossos leitores poderão encontrar em: http://bit.ly/YqeYir

A leitura no limite

Em mais de uma ocasião Borges outorgou papel proeminente à leitura. No que tange a declarações suas repetidas à exaustão, há duas que me interessa destacar: [1] o autor disse considerar que o Paraíso seria uma espécie de biblioteca e [2] ele aludiu que as páginas lidas por um escritor seriam mais louváveis que aquelas que esse mesmo escritor já produzira. 

Além disso, o tema da leitura reponta em mais de uma obra borgeana. Para o escritor, o ato de ler, assim como a literatura, seria um ato de re-escrita e até mesmo de criação, liberado, portanto, de seguir esquemas e de prender-se exclusivamente àquilo "que o autor quis dizer". O conto Pierre Menard, autor do Quixote (presente em Ficções, de 1944) é representativo dessa particular visão do fazer literário. 

Constituído por um “arremedo” de ensaio no qual se comentam as obras que teriam sido deixadas por Pierre Menard, o texto nos apresenta a mais audaciosa das empresas deste autor fictício: a re-escrita do Dom Quixote, de Miguel de Cervantes. Mas tal obra é composta com as mesmas palavras de Cervantes. A diferença está no significado que tais palavras tinham no século XVII quando a obra foi publicada pela primeira vez e o significado que elas possuíam no século XX. Para o ensaísta que escreve o conto, a intenção de Menard era louvável, pois este queria “continuar sendo Pierre Menard e chegar ao Quixote através das experiências de Pierre Menard”. (BORGES, 1972, p. 52). O destaque aqui não é para o autor, e sim para o leitor, aquela pessoa capaz de ampliar uma obra para além do limite de suas páginas, acrescentando significados às palavras a partir do seu momento histórico e, mais que isso, a partir de suas próprias experiências.


Se o primeiro exemplo que dei aponta para uma concepção "libertária" da leitura, os exemplos que se seguirão apontam para uma "premonição" borgeana: a leitura que ultrapassa os limites da materialidade e se avizinha do que hoje praticamos como sujeitos inseridos em uma "sociedade da informação". 

No conto O livro de areia, apresentado pela revista como dica de leitura, somos confrontados com um livro infinito, sem começo nem fim, de contornos deslizantes como a areia. Em consonância com o ponto de vista apresentado acima, podemos supor que todo livro pode ser um livro de areia, pois cada leitor (e aí voltamos ao tema da leitura) fará um percurso próprio que não se limita ao número de páginas, um percurso que ultrapassa a materialidade da obra que tem em mãos. 

Outros dois exemplos, mais contundentes: no conto A biblioteca de Babel, também presente no já mencionado Ficções, o universo é apresentado como uma biblioteca infinita: 

"O universo (que outros chamam a Biblioteca) constitui-se de um número indefinido, e quiçá infinito, de galerias hexagonais, com vastos poços de ventilação no centro, cercados por varandas baixíssimas. De qualquer hexágono, vêem-se os pisos inferiores e superiores: interminavelmente" (Borges, 1972, p. 84). 

Nesta biblioteca infinita, estão contidos todos os livros possíveis de serem escritos, sem que haja dois volumes idênticos e é impossível o conhecimento de todos eles no tempo curto da existência de um homem. 

Este conto se encerra com uma nota de rodapé que "simplifica" a questão e reduz a utilidade da vasta Biblioteca, antecipando a imagem trabalhada pelo autor no supracitado O livro de areia. Transcrevo: 

Letizia Álvarez de Toledo salientou que a vasta Biblioteca é inútil; a rigor, bastaria um só volume, de formato comum, impresso em corpo nove ou em corpo dez, composto de um número infinito de folhas infinitamente delgadas. (Cavalieri, em princípios do século XVII, disse que todo corpo sólido é justaposição de um número infinito de planos.) O manuseio desse vade mecum sedoso não seria cômodo: cada folha aparente se desdobraria em outras análogas; a inconcebível folha central não teria reverso. (Borges, 1972, p. 94) (grifo meu)

No que diz respeito à materialidade do objeto livro, nós sabemos que atualmente os textos já podem prescindir do suporte material e, habitando o espaço virtual, se deixam interceptar por links que nos direcionam sempre a novas e diferentes textualidades, como essas folhas aparentes que se desdobram em novas folhas sem reverso. Na rede, cada texto é sempre outro e sempre novo, sem começo e sem fim. Tenho a impressão de que relacionar a leitura dispersa da internet com o universo literário borgeano é um indício de como nosso olhar para o mundo foi sugestionado pela força da escrita do autor. Antes de passar para a próxima seção, deixo outra indicação de leitura, que irá esmiuçar melhor a relação de Borges com a internet e que fará isso com uma competência que me falta. Trata-se do artigo "A Biblioteca de Babel: uma metáfora para a sociedade da informação", de Johnny Virgil, disponível para leitura em: http://bit.ly/Xu6vdL

O olhar sugestionado

Em Borges y yo, texto presente no volume El hacedor, de 1960, e que é, diga-se de passagem, um falso convite à intimidade, o narrador aparente (o homem Borges, "divorciado" de sua persona de escritor) (?), assim se refere a um incômodo, causado pela convivência com sua outra parte:

Hace años yo traté de librarme de él y pasé de las mitologías del arrabal a los juegos con el tiempo y con lo infinito, pero esos juegos son de Borges ahora y tendré que idear otras cosas. Así mi vida es una fuga y todo lo pierdo y todo es del olvido, o del otro. (BORGES, 1997, p. 63) (grifo meu)
O que me chama a atenção nesta passagem é a alegação de que esses jogos pertencem a Borges agora. Ao transpor seus interesses "pessoais" para a literatura, colocando-os em letra de forma, o escritor estaria "roubando de si mesmo", ainda que no final do processo, pela própria repercussão de seus escritos, os jogos com o tempo e o infinito, assim como o gosto por mapas, relógios de areia e etimologias, estejam inevitavelmente associados ao seu nome. O texto já mencionado termina com uma frase que dá a justa medida da indissociação: "No sé cuál de los dos escribe esta página" (idem, p. 63).

Acredito que a força de atração que o nome de Borges exerce sobre determinados elementos de seu universo literário, fazendo com eles gravitem ao seu redor como os planetas em torno do sol, combinada com o caráter imagético de suas descrições (que pode ser comprovado por uma releitura do trecho aqui citado de A biblioteca de Babel) nos faz associar certas imagens e realidades ao seu universo literário tão particular. 

Aliás, o leitor mais atento deve ter percebido que este texto veio sendo acompanhado por algumas imagens que, à semelhança do texto borgeano, borram os limites entre o real e o fantástico. São montagens fotográficas feitas por Erik Johansson. É possível que alguns não concordem comigo, mas, desde o dia em que um amigo argentino compartilhou uma dessas imagens no Facebook e me marcou em sua publicação, não pude deixar de associar o universo visual desse artista alemão às criações de Borges, autor que, como proponho, colocou em sua literatura força suficiente para sugestionar (ou talvez subordinar) o nosso olhar, levando-nos a sempre enxergar algo de seu ao nos depararmos com imagens como estas ou com avanços tecnológicos como a internet.


Para quem tiver interesse de conhecer melhor a produção de Erik Johansson, sugiro visitar sua página pessoal: http://erikjohanssonphoto.com/. A divulgação da página responde ainda à indicação de autoria que é a condição colocada para o livre compartilhamento dessas imagens.


Obras de Borges citadas neste texto:

BORGES, Jorge Luis. Ficções. Tradução de Carlos Nejar. São Paulo: Abril Cultural, 1972

BORGES, Jorge Luis. El hacedor. Buenos Aires: Emecé, 1997


Pós-escrito: 

[1] Como qualquer outro texto publicado na Revista Encontro Literário, este também se presta a ser comentado, elogiado e criticado. Sobretudo criticado, porque não sei se fui suficientemente claro na segunda parte desta coluna, quando falo do "olhar sugestionado", que pode não passar de uma má expressão escolhida por mim para descrever o fenômeno a que faço referência.

[2] Para aqueles que sempre querem saber como o mágico tira o coelho da cartola (e tirar um pouco do encanto do espetáculo), deixo o link para um vídeo (em inglês) em que Erik Johansson explica seu processo de criação: http://youtu.be/mc0vhSseGk4

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

O marinheiro que perdeu as graças do mar: novela e canção sobre o desconforto do estar no mundo


"Entretanto, o velho pescador pensava sempre no mar no feminino e como se fosse uma coisa que concedesse ou negasse  grandes favores; mas se o mar praticasse selvagerias ou crueldades era só porque não podia evitá-lo"
(Ernest Hemingway) [1]



Atrasado, eu procurava um tema para riscar a coluna deste mês sem acertar com o que poderia escrever até que o acaso, na verdade quatro ou cinco posts de amigos no Facebook, me lembraram de uma novela do escritor japonês Yukio Mishima: O marinheiro que perdeu as graças do mar. Diziam os posts, que estou traduzindo: "nenhum mar calmo fez de um marinheiro um especialista".

E então me decidi, já que Mishima sempre cruzou meu caminho de modo inesperado, não planejado, através de livros que escolhi ao acaso nas prateleiras das bibliotecas, atraído pelos títulos ou pelas capas. Tudo começou em 2009, creio, quando li a obra já mencionada.

Essa novela, escrita na maturidade do autor, tem uma pequena extensão de páginas (155 no total) e se divide em duas partes: Verão e Inverno. No correr dessas duas estações somos apresentados a um complicado relacionamento familiar: Noboru, jovem de 13 anos, órfão de pai, enfrenta a mudança na vida de sua mãe quando ela decide viver uma relação com o Segundo Piloto Tsukazaki - o marinheiro que dá título à novela. Somado a isso, o adolescente constrói uma imagem superestimada de si mesmo no seio de um grupo secreto.

Mishima tece descrições sutis e singelas (mas, nem por isso, destituídas de força) e vai conduzindo os personagens de maneira sábia e sóbria do pré-clímax ao clímax e vice-versa, dando à narrativa uma movimentação que jamais culmina numa cena afirmativa. Parece que o livro foi escrito sob o signo da negação e os poucos personagens se esbatem nas redes dos desenganos e ilusões humanos. Terra e mar se contrapõem na figura do personagem Tsukazaki. Assim o descreve o autor, nas páginas iniciais: "Embora devesse ser aproximadamente da mesma idade que a mãe de Noboru, seu corpo parecia mais jovem e mais firme do que o de um homem da terra: ele poderia ter sido fundido na matriz do mar"[2].

No entanto, se Ryuji Tsukazaki teve seu corpo forjado pelo mar isso se fez a contrapelo, de modo imperioso, pois, ao contrário dos outros homens, ele fora levado à profissão "por uma antipatia pela terra" e não por gostar do mar. Diz ainda o texto: "Com o tempo, porém, ele se foi tornando indiferente à atração de terras exóticas. Viu-se naquela estranha situação enfrentada por todos os marinheiros: essencialmente, não pertencia à terra, nem ao mar. Um homem que odeia a terra deveria morar sempre na praia. A alienação e as prolongadas viagens marítimas o obrigariam a sonhar outra vez com a terra, atormentando-o com o absurdo de desejar alguma coisa que detesta".

Apesar da novela focalizar principalmente os conflitos do jovem Noboru, parece que ao se envolver com a mãe do rapaz o marinheiro rompeu com sua "estranha situação", criando um motivo para estar em terra talvez por mais tempo do que gostaria e, ao mesmo tempo, se envolve em um ambiente familiar tenso no qual ele nunca consegue romper a condição de ser um estranho. Por tudo isso, pode ser que ao final da leitura estejamos predispostos a aceitar (in)tranquilamente que a glória é amarga e que Tsukazaki é um “traidor”, razão pela qual teria perdido as graças do mar. Ou será que ele é um traído?

Deixo as questões àqueles que se animarem a ler a obra (e sintam-se à vontade para fazer comentários!). Passo agora a falar das tais "outras manifestações" a que o título da coluna faz referência. De modo similar descobri, por acaso, talvez procurando mais informações sobre a própria novela de Mishima, uma música que ostenta o mesmo nome da obra de que vim tratando até aqui: O marinheiro que perdeu as graças do mar. Trata-se da 6ª faixa do LP Nenhum de nós, o primeiro lançado pela banda gaúcha homônima nos idos de 1987.

Não entendo muito de música e espero que tenham isso em conta no momento de acusar minha análise de superficial ou mesmo inadequada ou impertinente, apesar de curta. Eu apenas achei interessante a coincidência do título da canção com o do livro e me parece pouco provável que ela pudesse ser gratuita. Essa música se assenta sobre uma melodia simples que soa repetitiva pela marcação que escutamos, ao longe, feita por um instrumento de percussão. A sensação que eu tenho, ao escutar, é que estamos justamente frente a esse impasse colocado pela novela. Sem mais, deixo com vocês a canção seguida de sua letra. Espero que gostem. Deixo também o site da banda para quem queira conhecer mais: http://www.nenhumdenos.com.br/



O marinheiro que perdeu as graças do mar
Composição: Thedy Corrêa, Sady Homrich, Carlos Stein

As ruas sempre vão ficar no mesmo lugar
Isso fez meus dias sempre iguais, sempre iguais
A imagem na janela é sempre a mesma
Impossível viver dessa maneira
Na Terra,
Esperando as lágrimas correrem de novo
Na Terra
Esperando
As lágrimas
As ondas nunca vão ficar no mesmo lugar
Tudo que eu posso ouvir é minha própria voz
O mar refugia horizontes vazios
Nele passaria a vida inteira
Esperando
As luzes do porto
Desejando o que mais odeio

Notas:

[1] Hemingway, Ernest. O velho e o mar. Trad. de Fernando de Castro Ferro. 46ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000)

[2] Todos os trechos da novela de Yukio Mishima aqui citados foram lidos em: Mishima, Yukio. O marinheiro que perdeu as graças do mar. Trad. de Waltensir Dutra. 2ª ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1986.

Pós-escritos:

Peço desculpas aos leitores pelo atraso e relativa inconstância da minha "coluna". Em geral as firulas vem no início do texto, mas como desconfio que isso já pode estar cansativo trouxe para o final. O ideal seria poder excluí-las. Quem sabe um dia?

Aos agraciados com a publicação de poemas no Edital 04/2012, informo que os livros e certificados de Menção Honrosa serão enviados até o dia 15/12/2012. Anteriormente eu informei que mandaria até hoje, 30 de novembro, mas só ontem a transportadora entregou os exemplares e prefiro não fazer as coisas correndo.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Em louvor de Lúcio Cardoso: a casa assassinada em livro e imagem

Hoje, 14 de agosto de 2012, comemora-se o centenário de nascimento de Lúcio Cardoso. Como revista dedicada à Literatura, nos compraz falar desse tipo de efeméride, embora seja forçoso reconhecer que o autor em pauta é bem menos "badalado" que Jorge Amado e Nelson Rodrigues, outros escritores que também estariam completando um século de vida neste mês de agosto. Nem ouso compará-lo, então, com os medalhões da MPB que vão chegando aos 70 anos também em 2012.

Ao redor deste escritor mineiro paira o mito de que ele é "mais estudado na Academia que lido fora dela", o que talvez seja verdade nestes tempos de pouca leitura e busca de conforto nos braços da autoajuda. O que contribuiu para esse ostracismo foi a marcada diferença existente entre o autor e seus contemporâneos. Se de Jorge Amado pode-se dizer que pintou (e fixou) em romances épicos o jeito de ser e os costumes baianos, de Lúcio temos a constatação de que ele tentou, ao contrário, demolir Minas Gerais, atacando os valores encarnados na família mineira: casamento, zelo da reputação, contenção dos desejos sob a influência do catolicismo.

Lúcio Cardoso não esteve comprometido com um projeto literário focado no social e sim no adensamento da investigação ontológica. Dizendo de outro modo, ele também tentou, à sua maneira, contribuir para a definição da identidade do Brasil na primeira metade do séc. XX, porém, apontou com suas obras para as contradições, receios e jogos de máscaras da nossa sociedade.

Sua obra mais aclamada é Crônica da casa assassinada, de 1959. Há pouco mais de meio século desfilam por suas páginas um grupo de personagens sombrios e torturados, que se mostram nos quadros fragmentários de que se compõe a narrativa. Cartas, trechos de diários e depoimentos recopilados por um investigador nas sombras ajudam a contar a história dos Meneses, uma tradicional família mineira que vai se desagregando sob a influência de Nina, mulher da cidade que se casa com Valdo Meneses, membro do clã.

Como o objetivo da minha coluna na revista não é somente louvar as personalidades literárias do nosso meio, faço aqui a ponte com um filme que se baseou no romance em referência. Dirigido por Paulo Cesar Saraceni e roteiro adaptado pelo próprio Lúcio Cardoso antes de falecer, estreou em 1971 o filme A Casa Assassinada, que transpõe para as telas ao longo de 103 minutos o essencial da obra cardosiana, com destaque para as atuações de Norma Bengell no papel de Nina e de Carlos Kroeber no papel de Timóteo, um dos irmãos de Valdo e "ovelha negra" da família, assombroso em sua obesidade acomodada em trajes femininos de uma avó do clã dos Meneses. O longa metragem conta com trilha sonora composta pelo maestro Antônio Carlos Jobim. Acima apresento a imagem do cartaz do filme e, à falta de um trecho do mesmo, termino essa postagem com um vídeo em que a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo executa parte da obra composta por Jobim para a película.


PS: Abaixo uma breve apresentação de outras obras de Lúcio Cardoso. 

Maleita (1934)
Primeira obra do autor, escrita aos 16 anos. O título refere-se à doença endêmica na região do rio São Francisco

Salgueiro (1935)
A ação se passa no morro carioca homônimo e trata da miséria de três gerações de habitantes do lugar

A luz no subsolo (1936)
A loucura que se abate em um casal depois da chegada, em sua casa, de uma nova empregada

Dias perdidos (1943)
Trata da trajetória de Silvio, que parte de Minas Gerais para o Rio de Janeiro após a morte dos pais

Inácio, O enfeitiçado e Baltazar (esta última, inacabada) (1944, 1954 e 2002, respectivamente)
Três novelas centradas no personagem Inácio, que convive com alcoólatras, prostitutas e assassinos de aluguel


PS (2): Segue também uma relação (bem resumida) de títulos mais novos dedicados à avaliação crítica da obra do autor.

* O riso escuro ou o pavão de luto: um percurso pela poesia de Lúcio Cardoso. Prefácio de Ruth Silviano Brandão. São Paulo, Edusp/Nankin, 2006. - de Ésio Macedo Ribeiro

* Lúcio Cardoso: Paixão e Morte na Literatura Brasileira. Maceió: Edufal, 2004 - de Enaura Quixabeira Rosa e Silva

* Espaços de memória: uma leitura de Crônica da casa assassinada, de Lúcio Cardoso. São Paulo: Nova Alexandria, 2002. - de Marta Cavalcante de Barros

terça-feira, 26 de junho de 2012

Temática negra em pauta: apresentação do Romanceiro da Abolição e do Canto dos Escravos

Não sei o que dizer aos amigos editores e, mais ainda, aos estimados leitores da Revista Encontro Literário pelo (constante) atraso das minhas colunas mensais. Até porque não me ocorrem outras explicações que não sejam a dificuldade em escolher os temas e, claro, uma excessiva dose de desorganização.

Bom, pode ser também uma espécie de mania que eu tenho e que o leitor mais atento já deve ter notado: dificilmente começo o texto indo direto ao ponto, e trato de alongar-me em "pretextualidades" que permitem que as ideias se acomodem e venham mais arrumadinhas para a página da revista.


Agora que todos passaram os olhos pela "oficina do autor", vamos ao que interessa: o tema da vez. Após homenagear, com atraso, o escritor Monteiro Lobato (veja a postagem a esse respeito aqui), faço outra homenagem pós-data: aos negros, cuja libertação da condição de escravos completou 124 anos no último mês de maio.


Pois bem. A história que quero contar começa em 1943, quando Aires da Mata Machado Filho (1909-1985), professor, filólogo e folclorista publicou O negro e o garimpo em Minas Gerais - um importante trabalho sobre os cantos de trabalho dos escravos bantos, recopilados por ele na região de São João da Chapada, distrito de Diamantina (MG). 

Esses cantos de trabalho, chamados vissungos, foram um marco no estudo etnográfico brasileiro, pois demonstravam que no nosso país não foram só os negros nagôs da Bahia quem deixaram contribuições linguísticas e culturais de grande importância, mas também os bantus trazidos a Minas Gerais. Ao publicar tal obra, Aires da Mata Machado recuperava um acervo cultural e rítmico importante para se compreender  um pouco melhor como se processou a formação da língua e da música que hoje temos como nossas, iluminando melhor nosso passado colonial.

Apesar de publicada há mais de 60 anos, estamos frente a uma obra que pode ser adquirida com relativa facilidade em edição da Itatiaia Editora (capa acima). Vejam aqui os resultados da busca pela Estante Virtual: http://www.estantevirtual.com.br/qtit/o-negro-e-o-garimpo-em-minas-gerais

Essa obra capital teve alguns desdobramentos. O primeiro que vou focalizar, é o poemário Romanceiro da Abolição, de Stella Leonardos, publicado em 1986 e premiado, na ocasião, com o terceiro lugar na categoria poesia do Prêmio Bienal Nestlé de Literatura Brasileira. Para dizer a verdade, a autora não bebe apenas da fonte de Mata Machado, reportando-se ainda a cantos e outros achados de gente do naipe de Mário de Andrade e Luís da Câmara Cascudo. Com um título e uma técnica poética que remetem ao conhecido livro de Cecília Meireles publicado em 1953, essa obra descreve a saga dos povos africanos em terras brasileiras.

Porém, ao contrário de Cecília, que busca compor poemas de intenção narrativa e dicção fluente, Stella Leonardos trata de buscar nos cantos dos negros as epígrafes e/ou os refrões de seus poemas, promovendo uma escrita cheia de quebras e atravessamentos, erigida como documento dos contatos interraciais e sem ocultar o jogo de forças que estava por trás de tudo. Com isso, desloca o foco da forma linguística ou mesmo de uma intenção estilística, e traz para o centro da cena aquilo que os próprios negros produziram e que deveria ser mais conhecido. Desnecessário dizer que eu considero ser este um livro que vale a pena ser lido. Ele também pode ser encontrado em uma busca rápida: http://www.estantevirtual.com.br/qtit/romanceiro-da-abolicao 


Deixo aqui um desses poemas para que vocês apreciem:



“Com licença do curiandamba”...
“Papai auê”...

Vissungos coligidos por Aires da Mata Machado Filho

CANTO NA NOITE FECHADA

Licença, curiandamba,
de mostrar pra vosmicê
nessa malamba de vida
saudade avoando ferida
nas asas de tatanguê?

                  “Papai auê
                  mamãe, papai auê
                Iô, fero a, siquê
                tequirombô maianê
              a ê, mamãe ê”

A noite banza, manganga,
com seu povo jeito noite,
riso morto, mar nos olhos
das estrelas de: por quê?

Passemos, agora, a outro desdobramento do trabalho do professor Aires da Mata Machado. Trata-se do disco O canto dos escravos, lançado em 1982 pela gravadora Eldorado, com registro em áudio de 14 dos cantos de trabalho recopilados e partiturados pelo pesquisador. No disco, os vissungos são entoados por Tia Doca, pastora da velha guarda da Portela, por Geraldo Filme, sambista paulistano, e por Clementina de Jesus, uma das cantoras brasileiras mais importantes no que diz respeito ao resgate das raízes da música popular de origem africana e dona de um timbre grave que evoca toda a ancestralidade dos cantos dos negros.


Trata-se, sem dúvida, de um trabalho corajoso, que vai na contramão das tendências mercadológicas que valorizam composições de gosto duvidoso e que se destinam unicamente a embalar um "remeximento das cadeiras" dos ouvintes. (Isto para dizer o mínimo e de modo respeitoso aos leitores.)

Tenho comigo que a audição do referido disco é uma oportunidade e tanto para conhecer e valorizar as "raízes do Brasil", normalmente tão esquecidas. Abaixo disponibilizo para audição uma das faixas do disco. Espero que gostem!


domingo, 20 de maio de 2012

Do livro à tela do cinema: a crítica de Monteiro Lobato ecoando nos filmes de Amácio Mazzaropi

Antes de mais nada, peço desculpas aos leitores mais assíduos pela demora em publicar minha coluna mensal na revista. Primeiramente, eu fiquei indeciso quanto ao assunto que deveria abordar no mês de abril, já que a indicação de leitura (que pode ser vista aqui) era instigante sob vários aspectos e permitia estabelecer conexões com mais de uma manifestação artística e cultural. Depois, pensei que existiam (e existem) vários outros temas que também merecem destaque no nosso espaço. Da indecisão à não redação do texto foi um pulo. Por esse motivo, inicio meu texto com este parágrafo tão longo quanto (talvez) afetado. 

Pois bem, entre os assuntos que podem aparecer na revista, me pareceu justo (além de necessário) enfocar a obra do paulista Monteiro Lobato (1882-1948) (foto), que hoje percebo ser um autor mais citado do que propriamente lido, sobretudo pelos jovens. Um exemplo: em 1982, quando se comemorava o centenário de nascimento do escritor paulista, a Rede Globo dedicou um Globo Repórter inteiro à sua vida e obra. Veja aqui: http://www.youtube.com/watch?v=vyATf0eOskY. Trinta anos depois, neste 2012 do "fim do mundo", não houve nenhum tipo de manifestação na grande mídia. Pelo menos não me dei conta. Por isso, falarei um pouco sobre um dos personagens de Lobato: o comentadíssimo Jeca Tatu. 

Esboçado em texto de 1917, o Jeca Tatu era, na opinião de Lobato, "um funesto parasita da terra (...), espécie de homem baldio, semi-nômade, inadaptável à civilização..." e que explicaria o atraso da nossa terra brasilis, sendo um entrave à modernização do país. Pouco depois o personagem iria celebrizar-se ao constar de um discurso proferido por Rui Barbosa no Teatro Lírico. A foto ao lado mostra parte dessa repercussão. O jurista, que jamais citara qualquer autor vivo até aquele momento, refere-se ao personagem lobatiano, definindo-o como "símbolo de preguiça e fatalismo, de sonolência e imprevisão, de esterilidade e tristeza, de subserviência e embotamento". Posteriormente, ao inteirar-se dos problemas de saúde causados pela falta de saneamento, Lobato faria uma retratação, reconhecendo que o Jeca não era, mas estava daquele jeito:
"Eu ignorava que eras assim, meu caro Jeca, por motivo de doenças tremendas. Está provado que tens no sangue e nas tripas todo um jardim zoológico da pior espécie. É essa bicharia cruel que te faz papudo, feio, molenga, inerte." (Lobato, 1918, prefácio à quarta edição de Urupês) [1]
Pausa.

Nesta mesma coluna, quero falar também de outro personagem nacional importante e esquecido: Amácio Mazzaropi (1912-1981). Embora tenha sido dos mais populares cineastas deste Brasil varonil, sempre recebido com entusiasmo pelo público que lotava as salas de exibição, ele enfrentou a oposição de boa parte da crítica especializada da época, que taxava seus filmes de rudimentares, ingênuos e previsíveis em sua fórmula pronta de sucesso, além de considerá-los uma apologia ao retrocesso numa sociedade que tentava modernizar-se a qualquer custo. Para conhecer a recepção da filmografia de Mazzaropi, leia os artigos reproduzidos na seção sucesso e crítica, na página virtual http://www.museumazzaropi.com.br/sucesso.htm. Atualmente essa visão tem sido repensada e já existem estudos acadêmicos que defendem um novo olhar à produção de Mazzaropi, entendida como sintomática dos problemas que permearam a construção da imagem de um Brasil moderno. A respeito desta reconsideração, recomendo este artigo aqui: http://www.editoraufjf.com.br/revista/index.php/ipotesi/article/viewFile/418/392 

Quanto à aproximação entre os nossos dois artistas, destaco dentre os textos do Museu Mazzaropi um de 1984, escrito por Wilson Tosta. O autor afirma que o cineasta "sempre negou-se a relacionar o seu Jeca com o Jeca Tatu de Monteiro Lobato". Embora essa negativa seja possível, tentarei aqui relacionar o personagem literário de um e o personagem fílmico do outro. O ponto de partida de nossa reflexão será o filme Jeca Tatú (1959, 89 min, p&b, direção de Milton Amaral), tido por muitos como um dos maiores sucessos da carreira do cineasta de Taubaté.

Como pode ser lido nos créditos iniciais do filme, a intenção de Mazzaropi é prestar uma "sincera homenagem ao saudoso Monteiro Lobato". Por aquele tempo a morte de Lobato ainda era um fato relativamente recente - se haviam passado apenas onze anos - e parece seguro afirmar que a caricatura representada pelo Jeca Tatú continuava a servir para fazer a crítica da população brasileira, ainda bastante concentrada no campo.


Desde as primeiras cenas, fica explícita a ligação da película com a obra lobatiana: Jeca é o habitante do interior do Brasil que não tem força para levantar-se da cama, dada a sua "preguiça". Ele vive com a esposa e os filhos em uma casa de pau-a-pique (foto ao lado) e, por conta de sua indolência, não trabalha a pouca terra que possui. Ao deixar a terra improdutiva e encher-se de dívidas no armazém para manter o sustento da família, o personagem torna-se presa fácil da ambição de seu vizinho, que lhe usurpa as terras mediante "hipotecagem de dívida".

Nota-se que o enfoque recai sobre a crítica de Lobato ao modo de vida do camponês brasileiro, entendido como atrasado, antes de ser visto como doente. Como já comentei acima, a primeira visão de Lobato a respeito do tema encarava o atraso do país como uma consequência da pouca disposição do camponês para o trabalho e do seu desconhecimento dos novos métodos e instrumentos para o trabalho da terra. No filme a questão "tecnológica" só aparece muito sutilmente numa emenda que o Jeca faz ao discurso de um político.

O político entra em cena quando o matuto já perdeu tudo. Em troca de votos (se você acha que este assunto é novo, está equivocado), ele promete conseguir novas terras para o Jeca e em um discurso lhe promete enxada para as lides do campo, quando então lhe é sugerido que prometa tratores. No mais, a crítica aos costumes e à politiquice tornam-se o foco principal do filme, apontando problemas da sociedade brasileira como o homenageado faria se estivesse vivo àquela época.

Mesmo resvalando para a panfletagem em alguns momentos, o filme mantém picos de comicidade impagável e ainda encontra tempo para tocar na questão das doenças, como na cena abaixo em que o Jeca diz que está tremendo por causa de um princípio de maleita (malária).



Além da leitura de Monteiro Lobato, recomendo a todos que assistam o filme pois foi produzido em um momento de nossa história em que não era a violência urbana no Rio que ocupava as salas de cinema. 


Notas:


Para saber mais sobre a vida e as outras obras de Mazzaropi: http://www.museumazzaropi.com.br e http://www.taubate-sp.com.br/mazzaropi.htm. Para um texto que trate mais especificamente do filme Jeca Tatú, acesse: http://www.museumazzaropi.com.br/filmes/10jtatu.htm

quarta-feira, 21 de março de 2012

Metamorfose(s) em texto e imagem: Ovídio, Franz Kafka e Peter Kuper

Aproveitando o gancho deixado pela indicação de leitura deste mês, proponho ao leitor um passeio por diferentes visões de um mesmo tema: a metamorfose. Aos interessados por literatura (principalmente a conhecida como clássica), o título da obra kafkiana, cuja leitura foi indicada pela Revista Encontro Literário, ecoa o de uma obra do poeta latino Ovídio - As metamorfoses.


Antes de prosseguir, um parênteses. Vamos ver o que nos diz o dicionário¹ sobre o tema? Trata-se de um substantivo feminino que indica basicamente duas coisas: as "mudanças de forma a que estão sujeitos principalmente os insetos e os batráquios", numa definição de cunho mais voltado à biologia, ou, em sentido figurado, as transformações e mudanças.

Visto deste ângulo, o título de ambas as obras é adequado ao seu conteúdo. Mas, apesar do eco apontado mais acima, entendemos que a semelhança entre a produção de Ovídio e a de Kafka para no título, visto que o tema da mudança de forma dos seres é retratado de distintas maneiras nesses textos.

Ovídio pede aos deuses que favoreçam seu intuito de contar, em um poema épico, como os seres assumiram novas formas, desde a criação do mundo (originado do Caos) até o império de Augusto: 


"É meu intento contar como os seres assumiram novas formas. Ó deuses - eis que fostes vós que os mudastes - favorecei o meu intuito, e conduzi, ininterruptamente, o meu poema, desde a origem do mundo até o meu tempo." (Ovídio, 1983, p. 11)

Podemos ver que se trata de um discurso mitológico. Ovídio escreve num momento em que já não se acredita tão piamente nos deuses que hoje estudamos como entidades mitológicas. Mas, dentro de seu objetivo de ajudar no movimento de afirmação do Império Romano, ele recorre aos mitos, colocando-os a serviço dessa afirmação. O que é importante é que percebamos que as mudanças dos seres são justificadas pelo caráter mitológico da obra. Além disso, como foram os deuses quem promoveram tais transformações,  elas podem ser entendidas tanto como punições (veja-se o mito de Níobe, quem teve seus filhos assassinados por Apolo e Diana em vingança à sua presunção de, sendo uma mortal, ousar dizer-se superior à deusa Latona)² quanto como recompensas (veja-se o mito de Miscelo, personagem que salvou-se de uma execução após a intervenção de Hércules haver mudado a cor das pedras que dariam a sentença)³. Dizendo de outro modo, podemos afirmar que, além de uma justificação, as metamorfoses respondem, na obra ovidiana, a uma finalidade educativa, consoante com a ideia de uma arte que pudesse a um só tempo deleitar e ensinar. É interessante notar, ainda, que o caráter dessas metamorfoses faz com que elas normalmente compareçam ao final das narrativas que constituem a obra, como um arremate ou acerto de contas.

Franz Kafka, por outro lado, está lidando com um discurso diferente do que viemos tratando até aqui. Na sua obra comparece o discurso alegórico. Não estamos mais no domínio do mito e tudo o que lemos deixa de se identificar com aquilo que imaginamos à primeira vista. Aqui, a metamorfose perde sua função exemplificadora e ganha um status diferenciado, simbólico. Por este motivo, na obra do autor tcheco a transformação do personagem se dá logo no início do relato e de maneira bastante abrupta. O leitor é colocado diante do fato sem nenhum tipo de preparação ou justificativa prévia, visto a situação ser apresentada já no primeiro parágrafo da novela:


"Certa manhã, após um sono conturbado, Gregor Samsa acordou e viu-se em sua cama transformado num inseto monstruoso. Deitado de costas sobre a própria carapaça, ergueu a cabeça e enxergou seu ventre escurecido, acentuadamente curvo, com profundas saliências onduladas, sobre o qual a colcha deslizava, prestes a cair. Suas inumeráveis pernas, terrivelmente finas se comparadas ao volume do corpo, agitavam-se pateticamente diante de seus olhos." (Kafka, 2010, p. 11) 


É um parágrafo que introduz o leitor no texto com um choque. Apesar disso, pode-se ler sem maiores sobressaltos, situação que tende a nos levar à aceitação, com relativa naturalidade, do absurdo da situação criada pela transformação sofrida pelo protagonista. Ao contrário do que se vê no texto clássico, a metamorfose aqui ocorre como o ponto de partida (e não de chegada) em relação ao qual todos os outros fatos se desdobram. Ela tem um papel central e, no entanto, não precisa ser explicada. Seu significado maior transcende a simples explicação ou mesmo a possibilidade de que tal coisa pudesse ter acontecido realmente.

O caráter alegórico do texto kafkiano nos permite associar Gregor Samsa com vários seres "reais" que se encontram numa posição que desestabiliza o modelo da vida burguesa. Tanto faz que seja um inseto monstruoso, um ente familiar portador de alguma deficiência ou um desempregado. De igual modo, as reações da família do protagonista apontam para o desmascaramento das bases em que se apóia essa mesma vida burguesa. A própria noção de família se vai desfazendo ao longo do texto, com claro menosprezo dos pais e da irmã pelo personagem transformado em inseto e que, a partir de certo ponto, começa a importuná-los mais que ajudá-los na obtenção de sustento, bens e "realização" em termos sociais.


Para terminar, falaremos de mais uma metamorfose. Esta é, contudo, um pouco diferente. Não vamos apontar mais para mudanças sofridas por personagens, mas para uma mudança de registro artístico do tema. Focalizaremos brevemente a adaptação que foi feita desta novela kafkiana pelo artista gráfico Peter Kuper. Este transpôs para quadrinhos a história de Gregor Samsa, acrescentando ao texto (disposto não mais em parágrafos, mas em balões e outras representações afins) imagens que apontam novas possibilidades de interpretação para a obra. 


Chamamos a atenção para essas "novas possibilidades" por entender que a linguagem imagética oferece outro tipo provocações aos sentidos, ampliando a gama de significados que podemos construir a partir de um texto, coisa que nem sempre conseguimos fazer pela dificuldade de visualizar mentalmente o que está sendo narrado. Com certeza vale a pena conferir todos os trabalhos que comentamos brevemente nesta coluna., até mesmo para que cada um possa construir sua imagem das metamorfoses e, quem sabe, transformar a si mesmo através da leitura. 


Para quem maneja bem o inglês, fica a dica do site da editora Random House, responsável pela publicação original da obra de Kuper: http://www.randomhouse.com/crown/metamorphosis/


Notas:


1. Cf. definição do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, disponível em http://www.priberam.pt/dlpo/default.aspx?pal=metamorfose. Acesso em 21/03/2012

2. O mito de Níobe aparece no livro VI, d'As Metamorfoses, de Ovídio, referenciadas ao final deste trabalho.

3. O mito de Miscelo aparece no livro XV, d'As Metamorfoses, de Ovídio, referenciadas ao final deste trabalho.

Bibliografia: 

KAFKA, Franz. A metamorfose. Tradução de Lourival Holt Albuquerque. São Paulo: Abril, 2010

OVÍDIO. As Metamorfoses. Tradução e notas de David Jardim Júnior. Rio de Janeiro: Ediouro, 1983

Pós-escrito:




Não resisti à tentação de colocar uma pequena amostra do trabalho de Peter Kuper aqui neste post. Ao lado está uma das muitas imagens felizes (no sentido de serem absurdamente bem realizadas) da adaptação. É uma imagem que conseguiu captar o nível de opressão da vida moderna, tão grande que o sonho de um homem como Gregor Samsa é poder exercer essa opressão contra o seu chefe.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Sobre corvos e cavaleiros: a resistência à ditadura brasileira através de canções com referências literárias

A quantidade de assuntos que se apresentam no momento de "riscar uma coluna" é enorme e conseguir recortar algo interessante acaba se tornando uma tarefa um tanto quanto ingrata. Feita essa pequena ressalva introdutória (tão curta quanto desnecessária), passemos ao assunto do dia: canções brasileiras que dialogam com a literatura e o modo como as mesmas se converteram em instrumentos de resistência/crítica ao regime militar brasileiro (1964-1985).

Elis Regina (1945-1982), a estrela de Falso Brilhante.
Concentraremos nossa atenção no trabalho da cantora gaúcha Elis Regina (foto), mais especificamente em seu espetáculo Falso Brilhante, que ficou em cartaz entre 1975 e 1977 na cidade de São Paulo. Ao analisar algumas das canções presentes no roteiro, explicitando a relação de intertextualidade que estabelecem com textos literários, pudemos perceber como o sentido das letras era explorado pela intérprete para compor um "dossiê" sobre o momento político do país.

É certo que a atitude da cantora de conceber um espetáculo musical nestes termos e a nossa atitude de interpretá-lo pelo viés que estamos adotando, pressupõe o entendimento da arte em geral como uma possível ferramenta para a contestação do mundo tal qual ele se nos apresenta, ainda que em linguagem cifrada e não diretamente acessível.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Sobre estilo e estilistas: quando a Literatura nos ajuda a pensar a indústria da moda

Manoel Messias da Fonseca
Ailton Magela de Assis Augusto [1]



[2]
Se buscarmos a origem etimológica da palavra estilo, veremos que a mesma vem do grego stylus: pequena haste de osso, metal, etc., com uma extremidade pontiaguda e a outra espatulada, que era usada pelos antigos para escrever sobre a camada de cera das tábulas.

Esse processo de escrita nos permite dizer que o stylus depende da tábula e vice-versa, ou seja, para que haja stylus é necessário que haja a tábula – eles existem em uma relação de dependência direta. Desta forma podemos dizer que estilo é aquilo que marca, mas que para se eternizar precisa de um suporte, precisa do outro. Talvez seja em função desta dicotomia que Buffon e Lacan tenham adotado definições diferentes para o mesmo (?) “objeto”: para Buffon “o estilo é o próprio homem” e para Lacan “o estilo é o outro”. Enquanto aquele o definiu no século XVIII este o definiu no século XX. Filhos da mesma pátria... distantes no tempo... distantes no espaço... distantes no conceito. Eu e o outro.

Buffon era matemático, naturalista, escritor e tinha uma concepção mais “egocêntrica” na definição de estilo. Podemos dizer que ele está mais para o objeto que marca do que para o objeto que se deixa marcar. Sua concepção é singular, visto que o objeto que marca é somente um e os objetos que se deixam marcar podem ser vários. Lacan, por sua vez, era psicanalista e filósofo. Tinha uma concepção “ego excêntrica” em relação à definição do estilo. Sua concepção é plural. Podemos dizer que para Lacan o estilo situa-se no objeto marcado e não naquele que marca.


quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

"Os Miseráveis"

Aos aficcionados pela boa literatura, inclusive no seu diálogo com o cinema, vale a pena conferir a versão integral em minissérie d' Os Miseráveis (1862), de Victor Hugo (1802-1885). A obra-prima desse romancista narra a trajetória de Jean Valjean, um homem que foge da prisão e tenta reconstruir sua nova vida através de um trabalho digno, empregando os ganhos de sua nova fortuna em obras sociais que possam reabilitar os miseráveis que encontra. Porém, toda essa dedicação é interrompida quando um agente do Estado aparece arbitrariamente em seu caminho. Nesse sentido, Os Miseráveis traz claramente a filosofia humana, política e social de Victor Hugo, oferecendo ao leitor e cinéfilo tanto a opção de conferir as 1500 páginas, aproximadamente, do grande romance de Victor Hugo, quanto assistir à monumental minissérie européia (caixa com 2 DVDs). Com uma reconstituição de época impecável, essa superprodução tem no elenco os astros Gérard Depardieu, John Malkovich, Christian Clavier, Jeanne Moreau e Virginie Ledoyen. A minissérie pode ser conferida também através da Rede Bandeirantes de Televisão, a partir desta quarta-feira, 4 de janeiro, às 22:15.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Drummond e Portinari: poesia e pintura

Escrevo este texto premido pelas obrigações da minha função de editor e, ao mesmo tempo, aproveitando o ensejo das comemorações recentes pelo aniversário do poeta Carlos Drummond de Andrade, que já comentamos aqui na Revista e que, inclusive, ensejou igualmente a dica de leitura postada pelo amigo Raphael Reis.

Pensei que para começar uma "coluna" - neste caso seria melhor falar de marcadores - sobre as aproximações da Literatura com outras artes, seria interessante mostrar alguns dos poemas que Drummond escreveu como "legenda" ou "glosa" para desenhos de Portinari criados a partir do Dom Quixote, de Cervantes - ao fim e ao cabo, outra referência literária.

Estes poemas foram editados em um volume fora de comércio junto com os desenhos de Portinari, sendo reunidos depois por Drummond no volume As impurezas do branco, de 1973. Para explicitar o valor dessa aproximação da literatura com a pintura recorro às considerações de Alice Áurea Penteado Martha, que, em um artigo [1] dedicado aos desenhos de Portinari e aos poemas de Drummond diz o seguinte:

"A construção dos poemas revela, certamente entre outras, duas leituras do poeta: do texto de Cervantes (1605) e dos cartões da série Quixote, de Portinari. Sob essa ótica, a elaboração dos poemas pressupõe modos diferenciados de percepção do objeto de poesia pelo eu poético, um verbal e outro não-verbal, dinâmica que produz, no entrelaçamento de visões, um Quixote renovado, para deleite dos leitores de Cervantes, de Portinari e do próprio Drummond."


Dom Quixote de Cócoras com Idéias Delirantes


I / Soneto da loucura
A minha casa pobre é rica de quimera
e se vou sem destino a trovejar espantos,
meu nome há de romper as mais nevoentas eras
tal qual Pentapolim, o rei dos Garamantas.

Rola em minha cabeça o tropel de batalhas
jamais vistas no chão ou no mar ou no inferno.
Se da escura cozinha escapa o cheiro de alho,
o que nele recolho é o olor da glória eterna.

Donzelas a salvar, há milhares na Terra
e eu parto e meu rocim, corisco, espada, grito,
torto endireitando, herói de seda e ferro,

E não durmo, abrasado, e janto apenas nuvens,
na férvida obsessão de que enfim a bendita
Idade de Ouro e Sol baixe lá nas alturas.



VIII/A lã e a pedra                                                            
                                                                                                   Dom Quixote Atacando um Rebanho de Ovelhas
- Olha Alifanfarrão e seus guerreiros!
Olha Brandabarrão e Miaulina!
Micocolembro, vê! mais Timonel!
- Senhor, eu vejo apenas uns carneiros.


A lança em riste avança e fere a lã,
traspassa ovelhas como se varasse
o coração de feros inimigos.
- Chega, senhor, esta peleja é vã.


(Não chega, não, até que a boca sangre
                   e dentes saltem,
                   costelas partam-se
                   e role o corpo,
                   colchão de dores,
                   do herói vencido
                   não por Ali
                   mas a pedradas
                   de enfurecidos                    
                        pastores)