terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Sobre corvos e cavaleiros: a resistência à ditadura brasileira através de canções com referências literárias

A quantidade de assuntos que se apresentam no momento de "riscar uma coluna" é enorme e conseguir recortar algo interessante acaba se tornando uma tarefa um tanto quanto ingrata. Feita essa pequena ressalva introdutória (tão curta quanto desnecessária), passemos ao assunto do dia: canções brasileiras que dialogam com a literatura e o modo como as mesmas se converteram em instrumentos de resistência/crítica ao regime militar brasileiro (1964-1985).

Elis Regina (1945-1982), a estrela de Falso Brilhante.
Concentraremos nossa atenção no trabalho da cantora gaúcha Elis Regina (foto), mais especificamente em seu espetáculo Falso Brilhante, que ficou em cartaz entre 1975 e 1977 na cidade de São Paulo. Ao analisar algumas das canções presentes no roteiro, explicitando a relação de intertextualidade que estabelecem com textos literários, pudemos perceber como o sentido das letras era explorado pela intérprete para compor um "dossiê" sobre o momento político do país.

É certo que a atitude da cantora de conceber um espetáculo musical nestes termos e a nossa atitude de interpretá-lo pelo viés que estamos adotando, pressupõe o entendimento da arte em geral como uma possível ferramenta para a contestação do mundo tal qual ele se nos apresenta, ainda que em linguagem cifrada e não diretamente acessível.
No caso em pauta, a pressão para que cantores, escritores, etc. cumprissem a "função social do artista" se viu bastante aumentada por conta da ingerência do Estado em todos os setores da vida pública nacional, sendo esta caracterizada pela anulação dos espaços de oposição e pela intensa censura a todo tipo de produto cultural (ou não) que era posto em circulação. Nas palavras do historiador Marcos Napolitano:

Paradoxalmente, o fechamento completo do espaço público para os atores da oposição civil, consolidou os espaços galvanizados pela arte, como formas alternativas de participação, nos quais a música era um elemento de troca de mensagens e afirmação de valores, onde a palavra, mesmo sob forte coerção, conseguia circular. [1]

O autor defende que a promulgação do AI-5 e a consequente agudização do fechamento político contribuíram para a formação de uma mística em torno da MPB, vista como sendo espaço cultural privilegiado para a emersão dos temas políticos. Vê-se, pois, o pano de fundo sobre o qual se arquitetou o espetáculo de Elis Regina Carvalho Costa.

Falso Brilhante representou uma guinada na carreira da cantora gaúcha, que vinha de uma sequência de trabalhos de estúdio a tal ponto irrepreensíveis sob o aspecto técnico que chegaram a acusá-la de "frieza interpretativa". Em 1974, por exemplo, ano que antecedeu o show que estamos analisando, Elis havia realizado dois bem sucedidos trabalhos nos estúdios, lançando o álbum Elis & Tom (parceria com Antônio Carlos Jobim) e o seu LP anual, mais uma vez intitulado de Elis. Desses dois álbuns constam canções hoje tidas por clássicos da MPB, como Águas de Março, Corcovado e Dois pra lá, dois pra cá.

Voltemos ao show. Este pretendia contar, em dois atos (ver foto ao lado, retirada de página do programa do show), a trajetória da própria Elis, símbolo do artista brasileiro - essa joia falsa de que fala o título do espetáculo. Ao mesmo tempo, porém, em que dava enfoque ao artista, o roteiro do show jogava luz sobre a situação política do país, utilizando as letras das canções para inserção de criticas à ditadura.

No cenário, bonecos imensos dominavam vários espaços e em alguns momentos prendiam a cantora, limitando-lhe os movimentos e levando-a a interpretar visceralmente Agnus sei, cujos versos constatam a dificuldade de "vencer Satã só com orações", frase que pode ser entendida quase que ao pé da letra.

Edgar Allan Poe (1809-1849), escritor dos EUA.
Velha roupa colorida, de Belchior, falava da liberdade e prenunciava tempos melhores, para os quais "o passado nunca mais" teria importância. Esta canção dialoga com o poema O corvo - The raven -, de Edgar Allan Poe (foto). Vejamos: "como Poe, poeta louco americano, /eu pergunto ao passarinho: Blackbird o que se faz? / raven never raven never raven / Blackbird me responde / tudo já ficou atrás / raven never raven never raven / Assum-preto me responde / o passado nunca mais."


Não ignorando a referência cruzada que Belchior faz ao "Blackbird" de Paul McCartney e John Lennon, mas tentando interpretar a música à luz do poema de Poe é possível dizer-se que o pássaro do compositor cearense não é um mensageiro das trevas, mas sim que ele rompe com a imagem de uma ave de mau agouro. O diálogo com o "passarinho" (nossa própria consciência coletiva, talvez?) visa buscar respostas para a situação de opressão que o país vivia.

O "nunca mais" que vem como resposta é um bálsamo à alma. E a chave de ouro é a associação do corvo e do melro (blackbird) com o brasileiríssimo assum-preto que normalmente tem seus olhos vazados para melhor cantar. Exatamente como a consciência daquele período conturbado de nossa história e a de todos os outros períodos dificultosos que já passaram ou que podem ainda chegar: deveríamos nos manifestar sempre mais (e até com alguma beleza) quando nossas liberdades e direitos estão cerceados.


A canção seguinte, Homem de La Mancha, possivelmente retirada do musical homônimo (em cartaz no país desde 1972), inclui o quixotismo [2] no espetáculo, com um alerta dado pela própria voz do herói "errante e audaz" ao nosso "mundo sórdido e vil" (o Brasil?)

Ilustração sobre a batalha de Dom Quixote contra os moinhos de vento.
A esse alerta emenda-se outra referência ao Quixote: O cavaleiro e os moinhos, de João Bosco e Aldir Blanc. Nesta canção, paralelamente a conselhos como "acreditar na existência dourada do sol", estão constatações mais amargas, como a de que "já não há mais moinhos como os de antigamente". Infelizmente para quem viveu aquela época, os gigantes já não eram simples alucinações.

Só que tão malandramente quanto o "baderneiro que se tornou cavaleiro", o espetáculo muda de tom e se encerra com uma mensagem bem mais otimista, com Elis interpretando o sambão O mestre sala dos mares (mais um libelo da liberdade), a Marcha da quarta-feira de cinzas e Fascinação, canção que encerra o espetáculo reafirmando, ainda em tom quixotesco, que naqueles tempos bicudos restava o recurso de sonhar.

Observações:

[a] Parte das músicas comentadas neste post estão disponíveis para download. Basta clicar sobre os nomes delas para acessar os links.


Notas:

[1] NAPOLITANO, Marcos. A música popular brasileira (MPB) dos anos 70: resistência política e consumo cultural. Disponível em: www.hist.puc.cl/iaspm/mexico/articulos/Napolitano.pdf

[2] Desde o título, a canção chama a atenção para o texto de Dom Quixote de La Mancha, obra máxima de Miguel de Cervantes Saavedra. Publicada no século XVII, na Espanha, essa obra recebeu inúmeras (re)leituras e análises ao longo do tempo. Destaque para a advertência feita pelo cavaleiro na canção, a qual emula o tom adotado pelo personagem Dom Quixote nos diálogos que antecedem seus combates.

6 comentários:

  1. É TRISTE COISA NESTA VIDA, DITADURA ACABOU? EU NÃO SEI, ACHO QUE NÃO.AINDA TEM, MANDA QUEM PODE OBEDECE QUEM TEM JUÍZO.

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  2. TEM GENTE QUE GOSTA DE MANDAR...... MANDAR....E MANDAR MESMO ACHA QUE PODE MANDAR...........E QUE O OUTRO TEM QUE FAZER, O QUE É ISSO ? DITADURA....... SEM LIMITE...O BRASIL AINDA TEM GENTE ASSIM. VAMOS MUDAR ? IGUALDADE PARA TODOS NÓS.

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  3. COITADOS DAS PESSOAS QUE FORAM FORCADAS A FAZER O QUE OS DITADORES MANDAVAM.......E MANDAVAM......., MAS, COM CERTEZA DEUS VAI COBRAR DELES SOMOS SERES HUMANOS E MERECEMOS TODO O RESPEITO. SOMOS GENTE....

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  4. Que reflexão inteligente! "deveríamos nos manifestar sempre mais (e até com alguma beleza) quando nossas liberdades e direitos estão cerceados".

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