A obra A Tempestade é apontada como uma das últimas de Shakespeare, tendo sido escrita em 1611 e ido aos palcos pela primeira vez nesse mesmo ano. A peça está dividida em três partes e reflete bem a sagacidade do dramaturgo ao apresentar desde então aquilo que configuraria o sistema colonialista europeu...
A história apresenta então um duque de Milão, chamado Próspero, possuidor de uma grande biblioteca e estudioso da magia. Após ser usurpado do ducado por seu irmão, Antônio, com a ajuda do rei de Nápoles, Alonso, Próspero e sua filha Miranda são lançados ao mar, indo parar numa ilha. Lá, vivem apenas uma bruxa, que foi morta pela magia de Próspero, e o filho da bruxa, um monstro chamado Calibã, que se torna escravo de Próspero e aprende sua língua. A partir disso, começam os enfrentamentos e paralelos entre o habitante da ilha e o europeu, o que todo sistema colonial viria trazer à tona, dando mais vigor ainda à peça shakespereana...
Um dos pontos marcantes da comédia se dá quando, após uma viagem à África para ceder sua filha a um rei, Alonso retorna à Nápoles com o seu filho, o príncipe Fernando, Antônio (o usurpador) e outras figuras da nobreza, acabam naufragando diante de uma tempestade provocada por Próspero. Sendo levados então até à ilha onde está Próspero, desenrola-se enfim toda vingança de Próspero... Em meio a esse confronto entre os nobres italianos, a obra traz também traz o romance entre o filho do rei de Nápoles com Miranda, filha de Próspero, além de ser um texto rico em simbolismo e arquétipos que Shakespeare tão bem desenvolveu ao longo de sua obra, ao refletir a essência da criatura humana. Ou seja, perpassando o drama e a comédia, A tempestade é uma das obras-primas do dramaturgo inglês e tem como tema fundamental e preferido de Shaskespeare o poder e tudo o que os homens são capazes de fazer para tê-lo a favor de seus interesses mais sórdidos...
A Revista Encontro Literário tem como objetivo a publicação de Contos e Poesias. Para isso, serão lançados dois números anualmente. Além disso, iremos diponibilizar informações referentes ao mundo acadêmico, cultura em geral e informações literárias. Nossa missão é fomentar a produção literária, compartilhar informações e incentivar o prazer da leitura.
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quarta-feira, 20 de março de 2013
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
Dica de leitura: O Livro de Areia, de Jorge Luis Borges
“O número de páginas deste livro é infinito. Nenhuma é a primeira, nenhuma, a última.” (BORGES, 1999; 81)
Tendo a literatura como re-escritura, tema que contemplou amplamente em sua obra, o escritor argentino Jorge Luís Borges descreve, no Livro de Areia, uma de suas grandes “obsessões” – um livro que seja infinito. Nesse sentido, se desenrola a história de um personagem que compra um livro de um desconhecido e insistente vendedor de livros, ou Bíblias, que bate à porta de sua casa. Sem princípio nem fim, a narrativa, bem borgeana, é sempre uma nova possibilidade de leitura à medida que vai sendo lida; é como uma viagem rumo ao infinito e para lugares inimagináveis.
Eis a perturbadora impressão que “o livro” causa no personagem que o compra! Afinal, é uma leitura que nos leva, juntamente com esse personagem, ao desconhecido: “Faz alguns meses, ao entardecer, ouvi uma batida na porta. Abri e entrou um desconhecido (...) de traços mal conformados.” (BORGES,1999, p. 79). E ao mesmo tempo é a condição da leitura – espaço inacabado e que só se vai realizando à medida que se lê. Mas no caso do personagem central do livro de Borges, outro ponto instigante é que esse mesmo personagem não sabia ler: “Seu possuidor não sabia ler” (BORGES, 1999, p. 80).
Então, o que ele lia?
Contudo, ele “lê” fazendo-nos lê-lo, ao tentarmos decifrar o que está escrito. Percebe-se que “o livro” se confunde com nós mesmos, leitores-viajantes do infinito, quando batemos na nossa própria porta...
Ainda que breve, este pequeno texto é tão somente o convite para que possamos iniciar o contato com um dos maiores contistas e ficcionistas de todos os tempos, cosmopolita que nasceu Argentina, viveu na Europa e teve a sua obra traduzida para vários idiomas, além de ter sido nomeado, em 1955, diretor da Biblioteca Nacional de Buenos Aires. Não por menos, disse certa vez: “Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de livraria”.
domingo, 27 de janeiro de 2013
Dica de Leitura de Janeiro/2013: "As cem melhores crônicas brasileiras"
Não estranhe o leitor da revista a assinatura ao final da postagem. Por questões que fogem ao âmbito desta coluna, seu redator habitual está impedido de redigi-la e, como "o show de todo artista tem que continuar", aqui estou para substituí-lo. Espero poder fazer isso à altura.
Outro alerta: apesar da minha irregularidade na escrita da coluna pela qual sou responsável depôr em contrário, existe um planejamento mínimo para que a Revista Encontro Literário se mantenha no ar. E, de acordo com o script, a indicação de janeiro deveria contemplar alguma obra do escritor Paulo Leminski (1944-1989).
Mea culpa
No entanto, não me vejo em condições de indicar algo de Leminski aos leitores e explicar o fato exige de mim o reconhecimento de minhas limitações (sim, limitações!). Apesar do alarde em torno do nome de Leminski e do valor dado à sua atuação em prol da poesia brasileira, abrindo caminhos novos à expressão literária em verso e prosa (poética), confesso que não o li como deveria. Talvez um ou outro poema de antologia, mas nada que me habilite para apresentar ao autor ou a uma de suas obras aqui neste espaço.
Se resta um consolo, eu o encontro na coluna escrita pelo companheiro Raphael Reis sob os fogos que saudaram o novo ano: "Eu, enquanto leitor, quais leituras posso fazer para ampliar o meu horizonte de fabulação, fantasia e conhecimento, entre outras coisas?". Para mim já se coloca o nome de Paulo Leminski como uma resposta possível à pergunta.
Em tempo, vale a pena conferir a coluna mencionada: http://revistaencontroliterario.blogspot.com.br/2012/12/que-tal-alguns-desafios-para-2013.html
Indo ao que interessa
Uma vez que já expliquei por que sou eu quem assino a coluna desta vez e, mais que isso, por que não faço a indicação conforme o script, resta cumprir com a função principal que é indicar alguma obra que os nossos leitores possam desfrutar. Confesso tratar-se de uma indicação oportunista.
Neste mês, tivemos duas efemérides literárias que foram o ponto de partida desta indicação: os 90 anos que teria comemorado o cronista Sérgio Porto no dia 11 e, no dia seguinte, a comemoração pelo centenário de nascimento de Rubem Braga, inventor da (moderna) crônica brasileira [1]. A Folha de São Paulo do dia 12/01/2013, sábado, dedicou uma página da Ilustrada a Rubem Braga e, na edição de domingo (13), deu a público na Ilustríssima duas crônicas suas que estão por ser lançadas em volumes comemorativos. A matéria do sábado destacava também o pouco alarde em torno do aniversário de Sérgio Porto (ou Stanislaw Ponte Preta, como ficou mais conhecido).
Indo ao que interessa, devo dizer que a leitura dessa reportagem me deixou animado com a possibilidade de indicar uma obra de um desses autores, aproveitando a oportunidade dessas datas comemorativas. Mas, tratando de evitar esquecimentos como o que foi mencionado pela Folha, terminei optando por uma antologia que tem condições de apresentar não só os dois autores assinalados, mas também outros que se dedicaram ao cultivo deste gênero tão brasileiro. As cem melhores crônicas brasileiras (Ed. Objetiva, 351 págs.), volume organizado por Joaquim Ferreira dos Santos, traz uma seleção de textos de 62 autores, de variadas gerações literárias, começando por Machado de Assis ainda no século XIX e terminando com Carlos Heitor Cony e Antonio Prata, entre outros, nos anos 2000. Entre uma ponta e outra, textos de Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade e, claro, Rubem Braga e Stanislaw Ponte Preta, além de textos de autores como Olavo Bilac e Caetano Veloso, que normalmente não associamos à crônica. Antes que eu me esqueça: um dos textos escolhidos pelo organizador do volume é a crônica Complexo de vira-latas, de Nelson Rodrigues, a qual tem rendido muita discussão desde a sua publicação à época da Copa do Mundo de 1958.
O livro está dividido em partes sequenciadas cronologicamente, sendo cada uma delas iniciada com um breve panorama da época que será enfocada e que enfeixa textos dos seguintes períodos: de 1850 a 1920, de 1920 a 1950, anos 1950, anos 1960, anos 1970, anos 1980, anos 1980, anos 1990 e anos 2000. Além disso, o volume conta com uma introdução bastante feliz na explicação não só dos critérios de seleção dos textos [2] como também da dificuldade em delimitar o que vem a ser a crônica. A respeito da delimitação do gênero, assim se pronuncia Machado de Assis no texto que abre a antologia:
Não posso dizer positivamente em que ano nasceu a crônica; mas há toda a probabilidade de crer que foi coetânea das primeiras duas vizinhas. Essas vizinhas, entre o jantar e a merenda, sentaram-se à porta, para debicar os sucessos do dia. Provavelmente começaram a lastimar-se do calor. Uma diz que não pudera comer ao jantar, outra que tinha a camisa mais ensopada que as ervas que comera. Passar das ervas às plantações do morador fronteiro, e logo às tropelias amatórias do dito morador, e ao resto, era a coisa mais fácil, natural e possível do mundo. Eis a origem da crônica.
Temos aí destacadas pelo menos duas características da crônica: a primeira é seu caráter "informal", que Machado justifica atribuindo-lhe uma origem banal (o bate-papo de duas vizinhas) e a segunda se refere a seu conteúdo e função - a crônica pretende tecer um comentário sobre assuntos que estão com alguma visibilidade e que são "de interesse", tudo isso matizado por uma visão pessoal.
Os textos no volume tanto confirmam quanto negam essa primeira definição e, mais que isso, a ampliam. Eis um dos motivos para se aventurar na leitura de As cem melhores crônicas brasileiras. Além disso, é oportuno destacar que, por circular preferencialmente nos jornais, a crônica se tornou "uma espécie de iniciação do brasileiro ao prazer de ler" [3]. Sendo assim, nada mais natural que iniciar o Ano Novo com a leitura de um gênero textual "iniciático". Boas leituras!
Notas:
[1] Aqui faço referência a uma crônica de Clarice Lispector intitulada Ser cronista na qual a escritora assim se expressa sobre seu ofício e patenteia o lugar de Rubem Braga no conjunto dos cronistas brasileiros: “Sei que não sou [cronista], mas tenho meditado ligeiramente no assunto. Na verdade eu deveria conversar a respeito com Rubem Braga, que foi o inventor da crônica. Mas quero ver se consigo tatear sozinha no assunto e ver se chego a entender.”
[2] A introdução explica também a (lamentável) ausência de Manuel Bandeira e Cecília Meireles no volume por motivos extraliterários.
[3] Segundo a antologia, esse papel iniciador da crônica começa a se delinear mais fortemente a partir dos anos de 1950. A frase citada foi tirada do texto que introduz as peças dessa década. Ainda sobre este ponto, a crônica parece ser verdadeiramente um achado da nossa cultura. O escritor argentino Rodolfo Alonso, por exemplo, diz que a cessão de colunas jornalísticas a grandes escritores [de literatura] pode soar como um fato inimaginável em seu país e destaca ainda que, apesar de preservar a liberdade dos autores, ao colocá-los em um espaço de ampla circulação, a crônica relativiza os limites dessa liberdade e confronta "a exigência e a originalidade dos criadores com a exigência e a qualidade dos leitores". Seu texto original, em espanhol, pode ser lido aqui: http://www.cronicasdelaemigracion.com/opinion/rodolfo-alonso/revelacion-de-clarice-lispector/20130114112859047621.html
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
Dica de leitura: Cem Sonetos de Amor, de Pablo Neruda
Com uma beleza intensa e crua, os Cem sonetos de amor refletem a parte mais apaixonada da obra poética de Pablo Neruda. Escrevendo-os para Matilde, sua grande paixão, o poeta chileno ofereceu à sua musa uma linguagem tão sensorial que se pode saborear cada poema, provando-o nos lábios. Elaborados para serem lidos em voz alta, uma vez que são ricos de significados e tornam a leitura encantadora, os sonetos não apenas são um “gozo da linguagem”, numa alusão ao prazer do texto a que se refere Roland Barthes, mas também remetem às muitas imagens que Neruda utilizou para retratar o seu amor pela amada. E com tal poesia a musa do poeta é retratada, que nos permite também compará-la a um rio caudaloso que inesgotavelmente alimenta a sensibilidade e o oceano criativo do poeta como se lê no soneto XVII, só para citar alguns dos incontáveis versos: "Te amo como se amam certas coisas obscuras, secretamente, entre a sombra e a alma." É em meio a essa "escuridão" que o amor se estende para além dos que se possa esperar dele.
Sendo, portanto, um tema literário e universal, por excelência, não importa em qual idioma o amor é descrito, se existe ou não, mas quando ele pode ser cantado com tanto enlevo e vigor, nada melhor do que ao menos mergulhar na profundidade dos 100 sonetos de Neruda, que oportunamente os dividiu em 3 períodos do dia (manhã, tarde e noite). É assim que o grande poeta andino tenta transmitir toda a essência do amor em suas múltiplas faces, ora aludindo à natureza, ora ao cotidiano intenso da mulher...
sábado, 10 de novembro de 2012
Dica de leitura: O Estrangeiro, de Albert Camus
Publicado em 1942, O Estrangeiro, de Albert Camus é considerado pela crítica a grande obra do escritor franco-argelino, o que certamente contribuiu para que ele ganhasse o Prêmio Nobel de Literatura em 1957. Profundamente marcada por um tom existencialista e escrita num contexto do pós-guerra, quando o Existencialismo estava em voga na Europa, sendo pensado sobretudo por filósofos como Heidegger Merleau-Ponty e Sartre, a referida obra foi vista por esse último filósofo como uma emblemática ilustração da existência humana.
Desconcertante e “estranho”, o romance é a trajetória de um homem que viveu a vida de acordo com o seu pensamento e sensibilidade, trazendo à tona o absurdo de existir. É assim que o personagem Meursault narra em primeira pessoa uma história que é dividida em dois momentos: a morte de sua mãe e o seu julgamento enquanto estava na prisão. Aqui, ele é julgado não pelo assassinato de um árabe após uma briga, mas por ter ido contra as regras da sociedade – não chorou pela morte da mãe e ainda se divertiu no dia seguinte. Nota-se, portanto, que em meio a uma atitude niilista e indiferente ao mundo, O Estrangeiro faz uma crítica mordaz à sociedade, à medida que expõe friamente a notícia da morte da mãe: “Hoje minha mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. [...] Isto não quer dizer nada. [...]” A indiferença do personagem diante do ocorrido ilustra bem o que defendia Sartre, ou seja, a existência está revestida pelo absurdo e nada possui um sentido prévio. Já no dia do julgamento, na segunda parte, Meursault se incomoda tanto com a defesa quanto com a promotoria, que distorce o foco do julgamento e tenta padronizar um sentido para as ações do personagem:
Quanto a mim, sentia-me atordoado pelo calor e pelo espanto. O presidente tossiu um pouco e, em voz não muito alta, perguntou-me se eu queria acrescentar alguma coisa. Levantei-me e, como tinha vontade de falar, disse, aliás um pouco ao acaso, que não tinha tido intenção de matar o Árabe. O presidente respondeu que era uma afirmação, que até aqui não percebia lá muito bem o meu sistema de defesa e que gostaria, antes de ouvir o meu advogado, que eu especificasse os motivos que inspiraram o meu ato. Redargüi rapidamente, misturando um pouco as palavras e consciente do ridículo, que fora por causa do sol. Houve risos na sala. O meu advogado encolheu os ombros e, logo a seguir, deram-Lhe a palavra. Mas ele declarou que era tarde, que precisava de muito tempo e que pedia o adiamento até logo à tarde. [...]
Daí se vê que o personagem não tem nenhuma necessidade de mentir, ele apenas se limita a falar o que pensa, indiferentemente do que lhe possa acontecer. Não nenhuma resistência ou qualquer tentativa de querer se livrar de alguma culpa, como seria de se esperar, pois o mais importante Meursault é indignar-se com a imposição de verdades e de sentidos impostos pelo outro, assumindo, assim, uma atitude cética diante da realidade e de qualquer imposição ideológica.
No mais, fica esta grande sugestão de leitura – uma das obras mais instigantes e perturbadoras, dentre aquelas de teor existencialista...
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
Dica de leitura: Insônia, de Graciliano Ramos
Graciliano Ramos (1892-1953) foi um romancista, cronista, contista, jornalista, político e memorialista. A sua obra é bastante marcada por uma grande análise psicossocial e se ocupa principalmente dos extremos da experiência humana, tais como o amor, a miséria, a hipocrisia e os instintos mais primitivos do homem. O regionalismo no modo de falar dos personagens também aponta a crueldade que existe no julgamento por aparências.
Nessa perspectiva, o livro Insônia, que é dica deste mês, revela as várias faces do homem em situações distintas, descortinando as fragilidades e angústias humanas. É um livro que retrata uma trama psicológica, começando por um questionamento simples de um homem no meio da noite: “Tirou a vida de alguém ou a razão de esse alguém viver? Está apenas louco? Sente medo? Possui um trauma? Está apenas sonhando? Será uma saudade ou arrependimento? Uma preocupação ou apenas excesso de café na noite anterior”
Insônia se apresenta, então, como uma metáfora para que se perceba algo mais. Já que o personagem não consegue dormir, qual seria a alternativa, sentar e refletir no escuro ou observar os problemas do mundo em sua forma mais crua e sombria? Com 13 contos, o livro traz, como personagem fiel e protagonista, a própria insônia, pois, em meio às inquietudes da existência, o narrador não quer fazer o leitor se compadecer, simplesmente, mas levá-lo a confrontar a consciência de sua própria realidade. Assim, a experiência se torna mais intensa com a passagem do personagem pelo hospital, onde fica obcecado com a passagem do tempo e a falta de sentidos. Enfim, nota-se que é um livro que reflete de forma significativa os conflitos e angústias do próprio escritor diante do mundo à volta, além de uma agudeza singular para observar e pensar o enfrentamento do homem nordestino em um contexto hostil, injusto e implacável. Fica, então, a sugestão para mais uma grande leitura de Graciliano Ramos, que, em algum momento, nos aponta a nossa própria insônia...
segunda-feira, 23 de julho de 2012
Dica de Leitura: O Cão dos Baskerville, de Sir.Conann Doyle
Segundo a narrativa, numa determinada
noite, Hugo Baskerville, "um homem muito
violento, profano e ímpito” e seus amigos resolveram seqüestrar uma
“bela donzela” pela qual Hugo se apaixonara. Levaram-na para o Solar dos
Baskerville e a trancaram enquanto davam uma festa. A menina conseguiu
fugir, e, como todos estavam bêbados e sem pensar, acabaram por
segui-la. O resultado dessa noite foi a morte de Hugo, por um cão que se
assemelhava a uma besta negra e pavorosa.
A partir disso, outros assassinatos acontecem na família e o manuscrito passa a ser usado como um alerta,
como diz um trecho “E gostaria que acreditassem, meus
filhos, que a mesma Justiça que pune o pecado pode também graciosamente
perdoá-lo, e que não existe maldição tão pesada que não possa ser
anulada pela prece e pelo arrependimento. Aprendam, portanto, com essa
história, a não temer os frutos do passado, mas antes ser prudentes no
futuro…”
Eis a trama inicial, que conduz o
livro a uma alucinante busca por respostas. E quem, afinal, está por trás dos assassinatos? A cada momento, surgem novas questões, de modo que se torna impossível abandonar o
livro antes de se chegar à solução de todo o mistério que envolve as mortes.
Fica, portanto, a oportundidade de se conferir o refinado modo de pensar de
Sherlock Holmes, o que faz dele um dos personagens mais famosos e
surpreendentes da literatura ocidental...
domingo, 3 de junho de 2012
Dica de Leitura: Vaga Música, de Cecília Meireles
Uma das boas sugestões literárias da poesia brasileira é o livro Vaga música (1942), de Cecília Meireles, que marcou
definitivamente o auge de sua carreira. É uma poesia contínua que vai ao
encontro das imagens do mar. Nesse livro, uma das formas poéticas mais utilizadas pela
poeta é a da
canção, o que vem indicado, à maneira antiga, já nos títulos: "Pequena
canção da onda", "Canção da menina antiga", "Canção
excêntrica", "Canção quase inquieta", "Canção do
caminho", "Canções do mundo acabado", "Canção quase melancólica",
"Canção de alta noite", entre outras... Tendo herdado a linguagem musical e cadenciada do
simbolismo, e procurando depurá-lo, o lirismo de Cecília Meireles é perpassado pela melancolia e
pelo sentimento da saudade do tempo que passou, o que sugere uma reflexão sobre
a fugacidade da vida, a descrição do real e a preocupação com a falta de
sentido da existência, bem como a ênfase na condição solidária do homem.
De Vaga Música, vem este singelo poema em forma de canção:
Pequena canção
Pássaro da lua,
que queres cantar,
nessa terra tua,
sem flor e sem mar?
Nem osso de ouvido
Pela terra tua.
Teu canto é perdido,
pássaro da lua...
Pássaro da lua,
por que estás aqui?
Nem a canção tua
precisa de ti!
Pássaro da lua,
que queres cantar,
nessa terra tua,
sem flor e sem mar?
Nem osso de ouvido
Pela terra tua.
Teu canto é perdido,
pássaro da lua...
Pássaro da lua,
por que estás aqui?
Nem a canção tua
precisa de ti!
Confirmam-se, assim, algumas das características de uma bela canção: o som e o ritmo, a impregnação da realidade exterior pela
emoção, o apagamento dos fatos e a indeterminação quanto ao tempo e ao espaço.
Fica, então, o convite a música ceciliana, para além de uma vaga música....
sexta-feira, 30 de março de 2012
“Prefiro Não fazer”: uma forma de protesto ao Capitalismo
“Prefiro Não fazer”: uma forma de protesto ao Capitalismo
Raphael de Oliveira Reis[1]
Como já dissemos em outras oportunidades, uma boa obra é aquela que permite ao leitor um leque de interpretações, as quais são aceitas, mas nem sempre aceitáveis. Além disso, uma boa obra é aquela que nos diz algo, que faz sentido em nossa existência.
Bartleby: o escriturário, de Herman Melville (autor da famosa obra Moby Dick) é mais um livro que movimenta a criatividade dos críticos literários e do leitor comum, pois permite vários pontos de partida, bem como de chegada, devido ao comportamento atípico do protagonista Bartleby[2].
Eu, particularmente, parto da perspectiva de que o comportamento de Bartleby rompe com valores éticos, ou melhor, com o ethos do sistema capitalista, numa possível forma de “protesto”, de desencantamento; mesmo não consciente, não revolucionário, apático, mostrando a frieza das relações sociais[3] que tal sistema estabelece e reproduz como natural.
Uma das idéias principais do liberalismo é que os homens são iguais, haja vista que são proprietários (seja dos meios de produção ou de sua força de trabalho). Quando o advogado (não é mencionado o seu nome[4]), dono do escritório e narrador da história) chama Bartleby para revisar um documento, e este rompe com a normalidade aceita por todos, dizendo “Prefiro Não Fazer”, na verdade, recusa colocar a sua força de trabalho em disponibilidade, deixa de ser proprietário, logo é alguém estranho. Inclusive, essa atitude (de deixar de ser um bom trabalhador, de romper com a disciplina do trabalho, leia-se produtivo) irrita os outros dois trabalhadores do escritório, pois na divisão do trabalho há a necessidade de cooperação, para aumentar a produtividade, fazendo com que eles tentem persuadir Bartleby, mesmo que fosse necessária a violência para isso.
Porém, numa atitude racional de um homem capitalista, se assim o fosse o advogado, o mais correto seria despedi-lo, mas não consegue. Há alguma coisa em Bartleby que lhe desperta atenção.
Segue uma sucessão de ordens, no entanto, todas elas são rechaçadas com a famosa frase: "prefiro não fazer". Aumentando a pressão sobre o que fazer, o advogado tenta algumas alternativas (compaixão a la caridade cristã – dar dinheiro para que Bartleby deixasse o local de trabalho e procurasse outros afazeres -, que resolveria o problema, pelo menos do ponto de vista do advogado), porém não deu certo. Muda de escritório, contudo Bartleby permanece no prédio. Aqui há outro dado interessante: há uma fusão de Bartleby (corpo) com o espaço de trabalho, confundindo-se com o local de trabalho, não tem para onde ir. E assim, por quebrar a normalidade, Bartleby é preso como vadio (perceba que essa é uma prática que está relacionada às leis inglesas do século XVII, na Inglaterra), nas quais aqueles que não conseguiam trabalhar devido aos cercamentos, eram presos por vadiarem pelos centros urbanos.
Outro ponto do liberalismo é colocar o mercado como centro das relações, isto é, tudo é mercadoria, inclusive as relações humanas e os sentimentos. É um individualismo como valor radical, no qual as pessoas são guiadas por desejos e interesses, e não por laços de solidariedade, de interesses coletivos, e sim por interesses individuais para obterem vantagens. E não é à toa, que o título original tinha como subtítulo uma história de Wall Street (coração do mundo financeiro nos EUA).
Ao final, parece que há uma lucidez do narrador desta realidade, quando este apreende ou dá sinais de começar a compreender o humano, através de Bartleby, fazendo uma relação metafórica entre carta extraviada (para o carteiro é uma simples carta, mas para quem a receberia ou a enviou, não) com sua relação (humanidade) com Bartleby.
Ao final, as últimas palavras do narrador são: “Ele (Bartleby) era um homem a quem a prosperidade fazia mal” (grifos meus). E “Ah, Bartleby! Ah, humanidade!
Sobre Herman Melville:
[1] É Mestrando em Educação (UFJF), Especialista em Políticas Públicas e Gestão Social (UFJF) e Historiador (UFJF). É Edittor da Revista Encontro Literário e integrante do Grupo Prazer da Leitura. Atualmente, trabalha como Professor de Suporte Acadêmico no Caed-UFJF, Assessor Político e ministra cursos na área da formação do leitor e formação política.
[2] Conferir a dissertação de mestrado “Bartleby, de Herman Melville, e Begrebet Angest, de Søren Kierkegaard: possível aproximação” [Mestrado em Teoria Literária, PUCRS, 2002], de Vinícius Figueira.
[3] Ao fazer essa escolha estou excluindo outras possibilidades de análise, isto é, deixando outros ângulos de lado, porém o leitor poderá ter contato com essas outras reflexões na dissertação supracitada. Nesta perspectiva que estou adotando não percebo contradições de classe, mas sim um rompimento com o ethos do Sistema Capitalista.
[4] Creio que a ausência do nome do narrador deve-se ao fato de expandir suas características de sujeito a tantos outros que possam se identificar, ou seja, seria uma identidade coletiva.
sexta-feira, 2 de março de 2012
A Metamorfose, de Franz Kafka: um convite para quebrar o mar gelado que existe dentro de nós
A Metamorfose, de Franz Kafka: um convite para quebrar o mar gelado que existe dentro de nós
Raphael de Oliveira Reis[1]
Há muito tempo que eu queria comentar sobre a obra A Metamorfose, de Franz Kafka, na nossa coluna Dica de Leitura, pois dentre os seus escritos é a obra que eu mais gosto, além de estar entre os cinco livros de minha preferência: 1-Don Quijote de la Mancha; 2- Crime e Castigo; 3- Os Irmãos Karamazov; 4- A Metamorfose; e 5- Dom Casmurro. Ainda, há uma identificação da angústia vivenciada pela personagem principal (Gregor Samsa) frente as situações que lhe aparece, principalmente com a figura do pai.
A Metamorfose é uma das mais pertubadoras narrativas da História da Literatura, a qual faz com que se quebre o mar gelado que existe dentro de nós, e isto, em simplesmente 80 páginas!
Foi escrita em 1912, mas sua publicação aconteceu em 1918. De lá pra cá, despertou interesse dos mais eminentes críticos e autores, tais como: Albert Camus, Deleuze, Guattari, Sartre, Adorno, Borges, etc, que apontam e tentam discurtir sua complexidade.
É comum na estrutura narrativa de Kafka (ver também o livro O Processo), um começo impactante, do clímax, como se a personagem principal tivesse projetado de um longo pesadelo. No caso de A Metamorfose, Gregor Samsa acorda e precebe-se que se transformou em algo diferente, após sonhos intranquilos. E esse algo diferente, nada mais do que uma transformação em um inseto, especificamente em uma barata. No entanto, essa metamorfose se dá de forma natural, num ambiente sem interferência sobrenatural, uma transformação rápida e sem causa exterior – só o incomoda por não poder cumprir com sua rotina de trabalho.
Segundo Merçon (2006, 13)
a novela de Franz Kafka inaugura, cada uma a partir de sua perspectiva particular, duas questões incomuns de ordem antropocultural, moral e até mesmo existencial no seio do ambiente familiar. Do ponto de vista do indivíduo, a questão é: I) como lidar com a inusitada situação de se ver repentinamente metamorfoseado num ‘inseto monstruoso’? do ponto de vista de vista da coletividade que rodeia esse indivíduo, a questão se resume em: II) lidar com a presença inesperada e inevitável desse estranho ser no espaço íntimo do lar?
Em resumo, o problema central não é a transformação do filho (Gregor), e sim como lidar com algo (fisicamente) diferente e repugnante, embora com “essência” do humano e respectiva ligação familiar, e se virar financeiramente, já que quem era o provedor da família está impedido de trabalhar - já não pode mais sustentar os demais membros (pai, mãe e a irmã).
Gregor era caixeiro-viajante, vendedor de tecidos, único provedor da família, visto que os empreendimentos comerciais do pai não lograram êxito. Devido as exigências de sua profissão acordava cedo (5 horas da manhã), para enfrentar longas viagens de trem, levando-o a um distanciamento de outras práticas do cotidiano (como, por exemplo, lazer, religiosidade, amizades, etc), dedicando-se exclusivamente ao trabalho e ao esforço de que todos pudessem esquecer a desgraça que a família fora cometida, com a falência comercial do pai.
Dedicado à família e ao trabalho, Gregor se torna em um sujeito que deve executar aquilo que lhe é previsto, imposto, invés daquilo que realmente deseja (aquí fica a crítica ao sistema capitalista, o qual padroniza comportamentos e rotiniza o ser humano, o confundido com o objeto, ou melhor, com o objeto da produção).
Os seus familiares (pai, mãe e irmã) ficam passivos perante essa situação, esperando tudo de Gregor, porém após a metamorfose cada um terá que se virar, e de fato se viram, suas “limitações” se rompem.
Com a metamorfose (um desejo inconsciente de Gregor?) a normalidade é quebrada, isto é, fica impedido de cumprir suas tarefas no trabalho e de provedor da família, como já dissemos anteriormente. Assim será cobrado duramente pela família e pelo chefe. Sua transformação em um inseto é uma metáfora que mostra uma quebra com o mundo burocrático e de exploração do trabalho – o inseto não poderia fazer as tarefas mais simples do cotidiano como se levantar da cama.
Com essa situação supracitada, há um repúdio da família a Gregor, fazendo com que ele se afastasse em seu quarto, totalmente isolado de tudo e de todos, com contato restrito. Mesmo que sua vontade e pensamento fosse de humano, sua comunicação e físico lhe impedia de interagir com os demais membros, fazendo, inclusive, ser rechaçado e até ser agradido, como foi o caso do pai que lhe atirou um pedaço de maça em suas costas, quando de sua tentativa de sair do quarto para a sala, fato este estremamente angustiante e que marcará Gregor até o seu fim.
Outra cena marcante e que define a essência da obra é quando sua irmã Grete diz ao pai:
[…] É o único jeito, pai. O senhor precisa se desfazer da ideia de que aquilo é Gregor. Acreditar nisso, durante muito tempo, tem sido a nossa desgraça. Como pode ser Gregor? Se fosse, há muito teria percebido que seres humanos não podem viver com um bicho como aquele. E teria partido por conta própria. Perderíamos o irmão, mas poderíamos continuar vivendo com o verdadeiro Gregor em nossa memória, para sempre. (Kafka, 2010, 70-71).
E o final dessa narrativa?... Fica o convite ao leitor para quebrar o mar gelado que existe dentro de nós…
Obs.: Kafka quando terminou de escrever esse livro, como de costume, leu o 1º capítulo para alguns amigos, mas a leitura foi recebida com risos…
Sobre Franz Kafka
Nasceu em 3 de julho de 1883, em Praga, República Tcheca, cidade esta que contempla uma vasta e linda arquitetura medieval, e “sombria” por sinal (alguma influência em seus escritos?)
Teve dois irmãos que morreram antes de seu nascimento e 3 irmãs que morreram em campo de concentração, em 1940.
Um dos traços biográficos de Kafka é sua relação tensa com o pai, Herman Kafka, pois se via fracassado diante as espectativas paternas, além de outros traumas de infância como, por exemplo, quando pede ao pai um copo de àgua à noite e o mesmo lhe fecha numa varanda escura.
A pesar da regra básica de que não se deve fazer uma relação direta entre obra literária e dados biográficos, podemos apontar que a construção da A Metamorfose, em alguns elementos, foram retirados das suas experiências pessoais do cotidiano com a figura do pai. No seu livro de memória, Carta ao Pai, Kafka diz que: “eu era para ele um nada dessa espécie”.
Queria fazer filosofia, mas seu pai não deixou porque não dava retorno financeiro. Fez química (lembrando que a Alemanha se tornou a principal potência nesta área – Kafka viveu boa parte de sua vida na Alemanha e suas obras foram escritas em alemão), no entanto abandonou e foi fazer direito, formando-se em 1906 (aproveitou para cursar aulas de literatura, as quais eram sua paixão). Sobre isso diz certa vez: “tudo que não é literatura me aborrece”.
Sua vida amorosa também foi atribulada. Ficou noivo de Felice Bauer 2 vezes em menos de 5 anos, e teve outros relacionamentos malsucedidos.
Sua saúde era muito debilitada, contraiu turbeculose, a qual fez com que fosse internado em vários sanatórios para tratamento. Morreu jovem, aos 40 anos, em 1924.
Uma curiosidade é que suas obras quase ficaram no esquecimento e até mesmo correram o risco de serem destruídas, se não fosse o seu amigo Max Brod. Kafka teria lhe solicitado que queimasse todos os seus escritos, com exceção de O Veredicto, A Metamorfose, Na Colônia Penal, Um Médico da Província e o conto Um Artista de Fome. Contudo, Max Brod não o obedeceu e fez uma grande empreitada para publicar as demais obras (entre elas O Processo e O castelo).
Seu estilo, segundo o crítico literário Edgar carone, “é marcadamente seco, cartorial, com descrição pormenorizadas e tratando de eventos inesperados, quando não impossíveis”, como vimos na nossa dica de leitura acima.
Referências:
KAFKA, Franz. A Metamorfose. São Paulo: Ed. Abril, 2010.
MERÇON, Francisco Elias Simão. Uma Leitura Analística da Novela “A Metamorfose”, de Franz Kafka. Dissertação apresentada ao Departamento de Linguística da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, São Paulo, 2006.
[1] É Mestrando em Educação (PPGE-UFJF), Especialista em Políticas Públicas e Gestão Social (UFJF) e Graduado em História (UFJF). Atualmente, trabalha como Professor de Suporte Acadêmico no Caed-UFJF, Assessor Político e ministra cursos de formação do leitor e formação política.
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
Poesia Pérsia: o Rubaiyat, de Omar Khayyan
Poesia Pérsia: o Rubaiyat, de Omar Khayyan
A poesia não é menos misteriosa que os outros elementos do orbe. Tal ou qual verso afortunado não pode envaidecer-nos, porque é dom do Acaso ou do Espírito; só os erros são nossos. (Borges, Elogio a Sombra, 1969)
Particularmente, em minhas leituras, sempre privilegiei os gêneros conto e romance, pois tinha dificuldades em ler poesias.
Na época em que cursei a disciplina Literatura Espanhola (UFJF), a professora Silvina Carrizo detectou a chave desta questão, dizendo: “você não pode querer racionalizar todas as poesias; muitas poesias são para ser sentidas”. Isto de fato ficou gravado em minha memória e a cada obra de poesia lida a partir deste momento, fazia um esforço para sentir e não racionalizar. Porém, confesso que somente a partir dos Rubaiyat, de Omar Khayyam, que consegui sentir a poesia com naturalidade. Claro, isso pode estar aliado a 3 temáticas que aparecem em boa parte de seus Rubaiyat, e que me fascinam, a saber: a vida, a mulher e no meio destes dois, o vinho.
O verdadeiro nome de Omar Khayyan era Ghiyath Al Din Abul Fateh Omar Ibn Ibrahim Al Khayyan e nasceu em Nishapur, a capital provincial de Khurasan em torno de 1044 e morreu em Bishapur, em 1123. Foi matemático, astrônomo, filósofo, médico e poeta persa – a partir de 1935, a Pérsia passou a ser denominada Irã.A álgebra foi o primeiro campo no qual fez grandes contribuições, fez uma tentativa de classificar a maioria das equações algébricas, incluindo as equações de terceiro grau. Desenvolveu também a expansão binomial quando o expoente é um inteiro positivo. Foi considerado o primeiro a encontrar o teorema binomial e determinar coeficientes binominais. Na geometria, estudou generalidades de Euclides, contribuindo assim com a teoria das linhas paralelas.
Suas contribuições a outros campos da ciência incluem um estudo das generalidades de Euclides, do desenvolvimento dos métodos para a determinação exata da gravidade específica. Na metafísica, escreveu três livros: Risala, Dar Wujud e o Nauruz-namah recentemente descoberto. Era também um astrônomo de renome e um médico.
Apesar de ser um cientista, Omar Khayyan era também um ótimo poeta, e foi com a poesia que tornou-se conhecido mundialmente, em 1839, quando Edward Fitzgerald publicou uma tradução inglesa de seu Rubaiyat.
Este se tornou em um dos clássicos mais populares da literatura mundial. Deve-se considerar que é praticamente impossível traduzir exatamente todo o trabalho literário em outra língua, principalmente na língua árabe e seguindo a métrica que o persa utilizou para compor seu Rubaiyat. Apesar destas dificuldades, a popularidade da tradução do Rubaiyat indicaria a riqueza de seu pensamento.
Uma das coisas mais interessantes neste livro, aliás, o que acontece com os bons livros, são os múltiplos níveis de interpretação que ele permite ao leitor. Da maneira como é escrito, uma seqüência de 120 quadras, sendo que cada quadra contém dois primeiros versos rimados, o terceiro verso é livre e o quarto volta com a rima. No entanto, ao se traduzir, é dificílimo manter as rimas entre os dois primeiros versos com o quarto verso, embora isso não seja um empecilho para o deleite da poesia de Omar Khayyan.
O vinho, símbolo principal da obra, o qualprovoca a embriaguez, condenado tão veementemente pelo islamismo e adorado pela antiguidade romana, cujo representa o hedonismo, a sensualidade, a ignorância e o contato mais suave com a mulher e com o amor.
Além dessas questões supracitadas, não poderia deixar de mencionar a criativa intextualidade do genial e enigmático escritor argentino, Jorge Luis Borges, em seu livro “Elogio a Sombra”, de 1969, onde homenageia o autor persa com o seguinte Rubaiyat:
Volte em minha voz a métrica do persa
A recordar que o tempo é a diversa
Trama de sonhos ávidos que somos
E que o secreto Sonhador dispersa.
Volte a afirmar que é a cinza o fogo,
A carne o pó, o rio o fugidio
Reflexo de tua vida e de minha vida
Que lentamente se nos esvai logo.
Volte a afirmar que o árduo monumento
Que constrói a soberba é como o vento
Que passa e que, à luz inconcebível
De Quem perdura, um século é um momento
Volte a advertir que o rouxinol de ouro
Canta uma única vez no sonoro
Ápice da noite e que os astros
Avaros não prodigam seu tesouro.
Volte a lua ao verso que tua mão
Escreve como transforma no temporão
Azul o teu jardim. A mesma lua
Desse jardim há de procurar-te em vão.
Sejam sob a lua das ternas
Tardes teu humilde exemplo as cisternas,
Em cujo espelho de água se repetem
Umas poucas imagens eternas.
Que a lua do persa e os incertos
Ouros dos crepúsculos desertos
Voltem. Hoje é ontem. És os outros
Cujo rosto é o pó. És os mortos.
Enfim, deixo-vos com um aperitivo de alguns poemas do Rubaiyat, de Omar Khayyan:
1
Nunca murmurei uma prece,
nem escondi os meus pecados.
Ignoro se existe uma Justiça, ou Misericórdia;
mas não desespero: sou um homem sincero.
9
Que pobre o coração que não sabe amar
e não conhece o delírio da paixão.
Se não amas, que sol pode te aquecer,
ou que lua te consolar?
14
Tenho igual desprezo por libertinos ou devotos.
Quem irá dizer se terão o Céu ou o Inferno?
Conheces alguém que visitou esses lugares?
E ainda queres encher o mar com pedras?
21
Cristãos, judeus, muçulmanos, rezam,
com medo do inferno; mas se realmente soubessem
dos segredos de Deus, não iam plantar
as mesquinhas sementes do medo e da súplica.
26
Ninguém desvendará o Mistério. Nunca saberemos
o que se oculta por trás das aparências.
As nossas moradas são provisórias, menos aquela última.
Não vamos falar, toma o teu vinho.
37
Quando me falam das delícias que na outra vida
os eleitos irão gozar, respondo:
Confio no vinho, não em promessas;
o som dos tambores só é belo ao longe.
58
Senta-te e bebe, felicidade que Mahmud não teve.
Escuta os sussuros dos amantes, são os Salmos de Davi.
Não te importes com o passado, não sondes o futuro,
não percas este instante: Eis a paz.
66
Vinho, bálsamo para o meu coração doente,
vinho da cor das rosas, vinho perfumado
para calar a minha dor. Vinho, e o teu alaúde
de cordas de seda, minha amada.
92
Não aprendeste nada com os sábios,
mas o roçar dos lábios de uma mulher em teu peito
pode te revelar a felicidade.
Tens os dias contados. Toma vinho.
Observação: A íntegra da obra está em domínio público e pode ser facilmente baixada na internet.
[1] É Mestrando em Educação (UFJF), Especialista em Políticas Públicas (UFJF), e Graduado em História (UFJF). Trabalha como Professor de Suporte Acadêmico no Caed-UFJF, Editor na Revista Encontro Literário, Assessor Político e Consultor na área de Formação do Leitor e Formação Política.
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